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18-03-2005  Reportagem  
Bósnia Herzegóvina: memórias dolorosas de uma ex-prisioneira
Sadika Hajruli nasceu no último ano da Segunda Guerra Mundial, em janeiro de 1945. Quase 50 anos depois, ela se viu vítima de outra guerra que não lhe trouxe nada além de tumulto e sofrimento. Por Sanela Bajrambasic , da delegação do CICV em Sarajevo.

© CICV / Sanela Bajrambasic ref. ba-e-00011

Quando, em 1992, eclodiu o conflito na Bósnia Herzegóvina, sua terra natal, Sadika, de 48 anos, e seu marido, Kerim, de 33, um eletricista, trabalhavam em uma serraria perto da capital, Sarajevo. O casal e seus dois filhos moravam em uma casa que Kerim havia construído no povoado de Hadzici, a cerca de 15 minutos de Sarajevo.
“Ele era um companheiro muito agradável”, enfatizou repetidamente Sadika. “Ele nunca gritava comigo ou com nossos filhos.”

Logo depois que a guerra começou, a vida de Sadika se tornou um pesadelo de prisão e maus-tratos. Durante várias horas, levei-a a lembrar as dolorosas memórias de quatro anos de tortura e espancamentos. Mesmo assim, ela foi sempre simpática e estava ansiosa para me deixar à vontade.

Ao me contar sobre as coisas terríveis que lhe foram infligidas, ela se desculpou por esquecer o que estava para dizer em seguida.

“A mulher que me prendeu gostava de me bater contra a parede”, explicou Sadika parecendo pedir-me desculpas, como se tivesse me ofendido por me revelar um detalhe tão perturbador de sua história pessoal.

“Fui a primeira mulher detida em Hadzici. Quando eles vieram prender Kerim em 1992, não queria deixar meu marido ir embora, então eles disseram que eu teria de ir com ele. Durante dois meses ficamos presos juntos dentro do Centro Esportivo Hadzici.

Quando os soldados voltaram para levar Kerim embora, eu não podia negociar com eles pela segunda vez e eles não quiseram me levar junto”, explicou Sadika quando instigada por seu jovem neto, que estava bebendo café com ela quando cheguei para a entrevista.

Logo depois Sadika foi retirada do centro esportivo.

“Eu estava entre dez mulheres e um homem presos em várias casas das vizinhanças em Hadzici, às vezes duas pessoas por casa, às vezes uma. Apenas uma mulher católica e eu sobrevivemos até o fim.”

©CICV / Sanela Bajrambasic ref. ba-e-00012
Um lembrança de tempos melhores.

“Eles nos obrigaram a trabalhar para as famílias que ocupavam as casas. Isto em si teria sido razoável, dadas as circunstâncias, mas presumo que a guerra traga à tona o lado pior das pessoas. A mulher para a qual fui obrigada a trabalhar morava com o filho e a nora. Quase todos os dias ela me batia com um pedaço de pau, e raramente ela me dava algo para comer. Fiquei com ela durante a maior parte do período em que estive presa.”
Em setembro de 1994, finalmente o CICV conseguiu cadastrar Sadika como presa. Isto aconteceu mais de dois anos depois da sua prisão. Ela se lembra perfeitamente dos dois delegados do CICV que a visitaram, Pierre e Ivan. “Eles foram maravilhosos e me trataram como se eu fosse irmã deles”. Os delegados do CICV visitaram Sadika 12 vezes, até a sua libertação, em janeiro de 1996.

Seus quatro longos anos como prisioneira deixaram-na com um pulso e um braço quebrados, danos na coluna e problemas no crânio.

Completam-se agora dez anos do fim da guerra na Bósnia Herzegóvina. Após ser libertada, Sadika retornou para a casa que Kerim havia construído para ela e seus filhos. Parece que nada mudou, com exceção de nunca ter sido encontrado qualquer vestígio de seu marido. Para Sadika, a vida “nunca será a mesma, nunca”.


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18-03-2005