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28-08-2007  Entrevista  
Haiti: Trazendo de volta a dignidade humana
Voltando de uma missão de dois anos e meio como chefe da delegação no Haiti, Cédric Piralla fala sobre o papel especial desempenhado pelo CICV em um país assolado pela pobreza e violência crônicas.

©ICRC
Cédric Piralla

Quais são as principais preocupações humanitárias do CICV no Haiti?

Temos muitas preocupações humanitárias no Haiti, onde as necessidades são enormes. Há também muitas prioridades, tendo em vista que a população, enfraquecida por décadas de dificuldades, agora mal pode sobreviver. No entanto, as condições são tão desastrosas que, acima de tudo, precisamos nos concentrar em satisfazer as necessidades básicas.

Eu diria que a prioridade do CICV é trazer de volta a dignidade humana. Quando consertamos as torneiras de água em Cité Soleil, o objetivo não era apenas fornecer água limpa para as pessoas, mas também protegê-las, sobretudo as mulheres e crianças, garantindo que elas não precisassem mais sair da favela para conseguir água. Isto significa que elas não estão mais expostas à violência que existe nas áreas do entorno. Fornecer proteção e segurança para as pessoas que foram privadas dessas necessidades básicas contribui para o restabelecimento de sua dignidade.

O que há de especial no trabalho do CICV no Haiti?

©CICV/D. Revol/ht-d-00007
Distribuição de água na fonte pública de Cité Soleil.


O CICV está em contato e dialoga com todos aqueles envolvidos ou atingidos pela violência no Haiti. Sua presença de longo prazo e sua capacidade de ouvir todos os lados possibilitou que o CICV fincasse raízes e ganhasse o respeito e o reconhecimento como uma organização que oferece uma perspectiva humanitária para a situação. Diante da complexidade dos problemas do Haiti, o CICV se esforça para atuar como intermediário neutro entre as diferentes partes.

Penso que o povo haitiano, que está exposto a tantos perigos, sabe que pode contar com o CICV porque a organização opera de acordo com os princípios humanitários, mostra sua preocupação e seu compromisso com o bem estar da população, além de escutá-la. Manter laços estreitos com a população é essencial para o nosso trabalho.

O senhor pode nos fornecer dados atuais sobre os projetos do CICV para melhorar as condições em Cité-Soleil?

Nos últimos três anos, o CICV incentivou a volta dos serviços públicos a Cité Soleil. Isto é muito importante, uma vez que os problemas na favela são tão grandes que não podem ser resolvidos sem a participação das instituições do Estado.

O CICV começou a trabalhar em parceria com algumas dessas instituições, como a CAMEP, uma agência de abastecimento de água para os centros urbanos. Apoiando e acompanhando os funcionários da CAMEP, o CICV contribui para garantir que eles possam trabalhar sem se tornar alvos da violência. O conserto das torneiras de água simboliza a volta dos serviços públicos para a favela, o que é um passo crucial.

Ao levar adiante este projeto, o CICV consultou todos os interessados de forma a garantir que, em longo prazo, o serviço de abastecimento de água possa ser entregue aos parceiros locais. Isto vai acontecer uma vez que os custos de operação (combustível para o bombeamento da água e eventuais consertos) sejam cobertos pela venda de água.

Outro projeto conduzido em Cité Soleil, em parceria com a Cruz Vermelha do Haiti, possibilitou a transferência de muitas pessoas feridas para centros médicos adequados e a instalação de serviços de primeiros socorros e centros básicos de saúde.

Outros bairros em estado precário também exigem atenção. No momento o CICV está conduzindo um projeto em Martissant, um distrito no sul de Port-au-Prince, onde os moradores freqüentemente pagam o preço dos violentos confrontos entre as gangues armadas que controlam os vários bairros. É extremamente difícil se deslocar em Martissant, onde existem apenas duas ruas principais e as pessoas precisam atravessar as “frentes de combate” para se dirigir a um centro médico. O objetivo do projeto é facilitar a transferência das pessoas, um serviço feito pelos voluntários da Cruz Vermelha Haitiana.

Que tipo de trabalho o CICV faz nas prisões do Haiti?
©CICV/D. Revol/ht-d-00007
Crianças de Cité Soleil


As principais prioridades do CICV nas prisões haitianas são garantir que os presos tenham acesso a cuidados médicos adequados, que recebam água limpa em quantidade suficiente e que cada prisão tenha um sistema de esgoto eficiente.

Em 2005 e 2006, a presença de beribéri – um problema recorrente nas prisões haitianas – foi novamente registrada entre os presos. Com a assistência do CICV, as autoridades prisionais fizeram mudanças radicais na dieta dos presos e melhoraram a administração dos suprimentos de comida.

As instalações das prisões do Haiti são extremamente inadequadas e, em geral, não conseguem atender às necessidades dos presos. O CICV tem se esforçado para divulgar este problema internacionalmente. Um projeto ambicioso, com o apoio de Estados amigos como o Canadá, a França e os Estados Unidos, está sendo estabelecido a fim de trazer reformas estratégicas e coesas para o sistema prisional. O papel do CICV é identificar os principais problemas e analisá-los desde uma perspectiva humanitária.

O que o tocou mais nos seus contatos diários com os haitianos?

Tive a felicidade de trabalhar em duas missões como chefe da delegação do CICV no Haiti, a primeira vez em 1994. O que mais me tocou ao longo do meu trabalho foi perceber como os haitianos gostam e respeitam o trabalho do CICV. Isto acontece em parte porque estivemos presentes no país ao longo dos períodos mais difíceis dos últimos anos, e também porque a história particular do Haiti deu ao seu povo uma consciência aguçada em relação à importância dos princípios humanitários. Também fiquei tocado pela extraordinária imaginação do povo haitiano.

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28-08-2007