Como você descreveria o sistema de saúde no Iraque?
No Iraque, o CICV ajuda nos serviços de emergência reabilitando as estruturas de saúde e equipando-as com materiais médico e cirúrgico.
Em 2007, o CICV:
forneceu equipamentos essenciais para 73 salas de emergência em 69 hospitais e instalações médicas e para salas de operação em 27 hospitais por todo o Iraque;
distribuiu material médico de emergência que permitiu o tratamento de mais de 5.000 feridos de guerra em 28 hospitais pelo Iraque;
forneceu material médico como remédios, em 84 hospitais e 12 centros de saúde;
organizou três treinamentos, para 80 médicos e enfermeiros sobre primeiros socorros avançados, gerenciamento da sala de emergência em traumas e cirurgia de guerra.
É chocante ver como os iraquianos carecem de itens básicos em termos de serviço de saúde. Nos anos 70, o país oferecia um dos melhores serviços de saúde da região. Durante os anos de guerra, a infra-estrutura sofreu uma grande quebra por várias razões.
Devido à precária situação de segurança, a manutenção tornou-se impossível. Tanto as instalações como os equipamentos precisam de cuidado constante e renovação. Em qualquer zona de conflito, a ação médica de emergência é crucial. O Iraque continua sofrendo com incidentes que resultam em vítimas em massa. Mais recentemente, no dia 1 de fevereiro, as explosões que destruíram o mercado de Bagdá, Al Ghazl, e um segundo mercado no sul da cidade, mataram e feriram dúzias de pessoas.
Muitos pacientes que chegaram ao hospital poderiam e deveriam ser salvos. Entretanto, este não é sempre o caso, as salas de emergência e de operação não conseguem lidar com o número de vítimas.
Outro problema é a carência de uma equipe médica qualificada e experiente. Como muitos outros iraquianos, os clínicos, cirurgiões e enfermeiros estão sujeitos a ameaças, riscos de segurança para eles e suas famílias, seqüestros e assassinatos. Isto fez com que muitos abandonassem o país – uma considerável fuga de cérebros em um período que o país mais precisava.
Como esta situação afeta os iraquianos?
Durante uma das minhas visitas ao Iraque, eu conheci um homem que me disse: “A assistência médica não é uma prioridade para mim. O que importa é segurança, abrigo e emprego". Este deve ser o caso para vários iraquianos. Eu entendo quando as pessoas pensam deste jeito, especialmente quando o assunto é sobrevivência.
©Reuters /M. R. Mahmoud
No hospital Yarmouk em Bagdá
Posso entender que isto vai além da saúde, vai para a necessidade de estabilidade e segurança de qualquer tipo de violência. Também vem de um sentimento entre os iraquianos de desconfiança e falta de esperança nos serviços fornecidos. Entretanto, esta é uma posição perigosa porque as pessoas podem se acostumar com os serviços de saúde atuais que estão bem abaixo do padrão mínimo. As autoridades de saúde estão se empenhando, mas os recursos e a situação de segurança não permitem um ritmo mais rápido.
É extremamente difícil para que a população consiga assistência médica em um ambiente que está carente em suprimentos e que está limitado no que diz respeito às instalações, porque os edifícios são muito velhos. O problema é ainda pior para os grupos vulneráveis como: as crianças, mulheres grávidas e pessoas feridas. O risco de ser uma mulher, parada por uma barreira militar a caminho do hospital para dar a luz, não é tão evidente quanto o risco de se levar um tiro ou se seqüestrado.
Em uma situação tão complexa e perigosa, o CICV consegue responder às necessidades das pessoas no Iraque? O que deveria ser feito hoje a fim de melhorar o acesso aos serviços de saúde?
Não é possível dizer que o CICV consegue satisfazer todas as necessidades. Trabalhar no Iraque, hoje, continua perigoso já que a situação se torna cada vez mais instável e imprevisível. O único meio de sermos eficientes é o de focalizar na assistência de emergência.
©Reuters /F. Bensch
Os residentes fazem fila para tratamento médico dentro de um hospital em Zagraniyah, Bagdá.
Nossa principal meta hoje é responder às vítimas em massa. Ajudamos o sistema de saúde a lidar com o influxo de feridos, distribuindo kits de feridos de guerra que incluem itens médicos e cirúrgicos necessários para o tratamento e recuperação de uma pessoa ferida. Cada kit permite que os hospitais tratem mais de 100 pessoas feridas, reduzindo assim o número de mortes durante a hospitalização.
Após as explosões do dia 1 de fevereiro, o CICV forneceu ao Baghdad Teaching Hospital suprimentos médicos de emergência suficientes para tratar mais de 100 pacientes. Uma ajuda similar havia sido enviada anteriormente para os hospitais Al Kindi Teaching Hospital e Al-Imam Ali, em Bagdá, como medida de precaução. (veja Comunicado de Imprensa.)
Um elemento importante que sempre deveria ser mantido em mente é que as pessoas que trabalham na área médica e as instalações onde trabalham, deveriam ser protegidas, já que oferecem um serviço extremamente importante no Iraque de hoje. É bem difícil para o sistema de saúde iraquiano manter-se de pé com a falta de pessoal experiente. Junto com a reabilitação da infra-estrutura da saúde, a assistência para as equipes médicas deveria ser prioridade no Iraque.