Para os voluntários do Crescente Vermelho Árabe Sírio, as sextas-feiras são dias de expectativas
18-11-2011 Reportagem
No Centro de Resposta a Desastres de Al Zahirah, Damasco, o encarregado de comunicações do CICV na Síria, Saleh Dabbakeh, conversou com quatro voluntários sobre o que leva as pessoas a serem voluntárias e o que elas sentem quando fazem este trabalho.
Índice
Introdução
Al-Zahirah, Damasco. O Crescente Vermelho Árabe Sírio transformou um hospital em construção em um centro de operações de emergência.
© SARC / H. Hawasly / sy-e-00085
O compromisso e a dedicação dos voluntários do Crescente Vermelho Árabe Sírio ficaram especialmente evidentes desde a recente onda de episódios violentos na Síria. Muitos deram mais do que seu tempo, sacrificando seus trabalhos e suas rotinas para serem parte de um esforço que salva vidas.
Os voluntários do Centro em Al Zahirah, que atende a capital e adjacências, estão em estado de alerta total todos os dias da semana.
Mas as sextas-feiras são particularmente agitadas.
Tammam
Tammam, 32, engenheiro civil, chefia a sala de operações em Al Zahirah.
Tamman controla o movimento das ambulâncias do Crescente Vermelho Árabe Sírio que funciona em Damasco e arredores.
© SARC / H. Hawasly
Estamos mobilizados e atendendo a esta situação desde 24 de março. Desde então tenho dedicado todas minhas sextas-feiras ao Centro em Al Zahirah e ao trabalho voluntário. Começamos com uma simples sala de operações que foi sendo ampliada e melhorada com a ajuda da experiência local e dos equipamentos. Estamos planejando aumentar o número de ambulâncias e melhorar a sala de operações ainda mais.
A primeira hora da sexta-feira de manhã é chave. Para mim é uma hora de angústia. Penso sobre onde a violência poderá surgir, para onde enviar o primeiro veículo em uma missão de reconhecimento etc. Outra preocupação, devido a dificuldade da situação, é como podemos dar aos voluntários a orientação e a assistência necessárias para ajudá-los a tomarem decisões em campo. Não fico tranquilo até que todos os voluntários estejam de volta a salvo na sala de operações no fim do dia.
Meu trabalho é mais do que simplesmente administrar as operações do terreno. Tenho que tratar de diversos assuntos, desde dar apoio psicológico aos socorristas até preparar as ambulâncias. No centro de operações, não basta simplesmente administrar as operações – é preciso ser um líder. Você tem de dar o exemplo para os demais.
Há desafios no trabalho voluntário, mas também há oportunidades. Lembro-me de um dia em que precisava que uma ambulância atendesse um chamado. Em um prazo de 10 ou 15 minutos, quatro equipes diferentes já tinham respondido. Senti como se realmente fossemos uma família trabalhando em conjunto com uma finalidade em comum: atender as necessidades das pessoas vítimas da violência.
Há um sentimento de fraternidade e solidariedade entre os voluntários – uma atmosfera de proximidade que você não experimenta em nenhum outro lugar. Comemos juntos, conversamos e fazemos planos, mantendo um forte espírito de equipe. Os voluntários de outros estados e outras filiais estão vindo para Al Zahirah para aprender da experiência de nossa filial aqui em Damasco.
Samiah
Samiah, 32, estudou jornalismo. É professora de natação além de secretária do Alto Comitê Sírio para Resgates Aquáticos.
Um dia que passei com o Crescente Vermelho e que jamais esquecerei foi o dia 5 de junho. Naquele dia [o 44º aniversário da ocupação do Golã por Israel], participei do atendimento a chamados de emergência do Crescente Vermelho Árabe Sírio, quando milhares de sírios ingressaram na zona desmilitarizada do Golã ocupado. Nunca tinha visto tantas pessoas feridas ou mortas na minha vida. Instalamos um hospital de campanha onde foi possível dar assistência para muitos dos feridos.
Os mal-entendidos podem ser facilmente resolvidos através da comunicação efetiva. Às vezes somos interceptados em um posto de controle e não nos deixam entrar em uma determinada área. Mas normalmente conseguimos passar o bloqueio quando explicamos sobre a neutralidade do Crescente Vermelho Árabe Sírio.
Um dia, quando estávamos atendendo casos de emergência em uma área complicada, um grupo de pessoas avançou em nossa direção porque estávamos utilizando nossos rádios para nos comunicarmos com o Centro de Al Zahirah. Quando explicamos que éramos voluntários do Crescente Vermelho, a multidão se acalmou e pudemos retomar nosso serviço de ajuda.
Em outra oportunidade, depois de um confronto com agentes de segurança, um grupo de manifestantes se refugiou dentro de uma mesquita. Quando chegamos ao lugar, explicamos nossa missão aos agentes de segurança e eles nos deixaram entrar na mesquita. Removemos um ferido e prestamos primeiros-socorros para pessoas dos dois lados.
O que mais me entristece é que às vezes não posso chegar às pessoas que estão feridas e que precisam da minha ajuda. Ser incapaz de ajudar as pessoas faz com que eu me sinta impotente.
Bashir
Bashir, 28, é neurologista residente em um hospital de Damasco.
Venho ao Centro de Al Zahirah às quintas-feiras de tarde para preparar as dez ambulâncias e as duas clínicas móveis para o fim de semana. Meu trabalho é certificar-me de que os remédios e os materiais e equipamentos médicos estejam prontos. Normalmente permaneço no centro nas sextas e nos sábados também.
Fico contente quando não recebo chamadas na sexta-feira, porque sei que ninguém foi ferido. Fico triste de ver pessoas feridas. Quando consigo fazer com que uma pessoa ferida deixe de sangrar e sei que salvei sua vida, é quando fico feliz de verdade. As pessoas em geral ficam contentes quando tomam conhecimento de que somos voluntários e que não recebemos dinheiro por nosso trabalho.
Todas as sextas-feiras de manhã, verificamos se todas as ambulâncias estão prontas. As equipes são formadas e então recebem as planilhas oficiais da missão, que incluem os nomes dos socorristas que estarão em cada ambulância. Cada equipe é formada por um líder, dois socorristas e um batedor. (O explorador avalia a situação dos feridos e dos doentes e toma decisões em relação à questão do acesso).
Às vezes, as ambulâncias entram em áreas problemáticas sem nenhuma dificuldade (normalmente um veículo é enviado antes com voluntários que verificam a situação da segurança nestes lugares). Às vezes os documentos de identificação e da missão são controlados. Em algumas ocasiões, por diferentes motivos, as ambulâncias não recebem autorização para passar.
Ainda há problemas em algumas vizinhanças por causa da confusão com o emblema do crescente vermelho. Em alguns momentos até nossa neutralidade chega a ser questionada, e algumas pessoas querem que tomemos uma posição. Mas nossa neutralidade e imparcialidade estão sendo cada vez mais compreendidas. Oferecemos ajuda a qualquer um que necessite. Nossos voluntários levam os feridos ao hospital mais próximo - a menos que a pessoa ferida peça para ir a outro lugar.
As voluntárias tiveram um papel na melhora da confiança das pessoas no Crescente Vermelho Árabe Sírio. Com sua forma de falar aberta e franca, elas nos trouxeram mais perto da população.
Rina
Rina, 32, é coordenadora de projetos de uma ONG internacional que atende a refugiados iraquianos.
Damasco, Síria. Rania e Samia cuidam de um paciente em uma ambulância do Crescente Vermelho Árabe Sírio a caminho do hospital.
© SARC / H. Hawasly
Para mim, a sexta-feira era antes um feriado religioso; mas hoje em dia é simplesmente um dia mais de trabalho.
Sou voluntária desde 2001. Em 2009, tive de deixar este trabalho para retomar a faculdade, mas este ano voltei como socorrista. Cheguei à conclusão de que era melhor sair e tentar salvar vidas do que estar infeliz e preocupada vendo as notícias na TV.
A neutralidade lhe dá uma imagem mais clara dos eventos que estão ocorrendo no país. Ser neutro não torna o seu trabalho mais fácil, mas permite que você veja as coisas com objetividade. Se você não for neutro ficará mais exposto a situações difíceis.
A primeira vez que atendi a um chamado de emergência vi pessoas mortas e feridas. Perguntava-me quem seriam. Ao fazer esta pergunta me senti incômoda porque pensei que a resposta para esta pergunta poderia influenciar o meu juízo neutro, já que todos ali precisavam de ajuda - independente de quem fossem. A partir deste dia, prometi a mim mesma que ajudaria todo mundo que necessitasse e deixaria de me fazer este tipo de perguntas.
Essa não foi uma época fácil para a maioria dos sírios. Decidi evitar discutir política com pessoas da família, parentes e amigos para manter minha saúde mental.
Hoje não foi um dia cheio; graças a Deus [risos]. Passar tempo no terreno não nos permite sentir que nossa missão está terminada. Evacuamos pacientes e às vezes não podemos dar o tratamento completo. No dia 5 de junho, aniversário da ocupação do Golã, trabalhei mais do que nunca tinha trabalhado em toda minha vida, prestando atendimento de primeiros-socorros. Algumas pessoas morreram enquanto tentávamos ajudá-las. Não pudemos salvar suas vidas. É triste, mas estou muito orgulhosa do que conseguimos fazer até agora: é uma conquista imensa.
Agora procuro ver mais as conquistas do Crescente Vermelho Árabe Sírio. Nossas ambulâncias, nossas equipes e nós mesmos ficamos mais eficientes e estamos orgulhosos disso. Agora podemos prestar serviços de apoio psicológico aqui, e até podemos apoiar uns aos outros. Nossas relações uns com os outro, como voluntários, ficaram melhores, mais fortes e mais sólidas.



