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Vítimas das minas querem trabalho, não pena – História de Najmuddin

26-11-2009 Reportagem

Nascido em 1966 em Panjshir, Afeganistão, Najmuddin foi educado em Panjshir e em Cabul. Aos 18 anos, perdeu as pernas em acidente com uma mina terrestre. Nos cinco anos seguintes, lutou para conseguir um trabalho e, sem sucesso, ficou confinado a sua casa. Em 1988, obteve pernas artificiais – e um trabalho – do Centro de Reabilitação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Cabul. Ele se capacitou como fisioterapeuta e se tornou diretor do centro de reabilitação em 1995. Junto com o CICV, promove a reintegração social de portadores de necessidades especiais no Afeganistão.

Meu nome é Najmuddin Helal.

     

 
   
Veja também o vídeo : Uma nova vida para os amputados no Afeganistão (em inglês)      
   
 
   
Najmuddin com um paciente no centro ortopédico do CICV, em Cabul      
         

Sou um dos milhares de afegãos que perderam as pernas em acidentes com minas terrestres. Tinha 18 anos quando o acidente aconteceu. Foi um milagre ter sobrevivido. Confesso que, na época, não teria me importado de morrer.

 

Passei seis meses no hospital e depois fui para casa. Comprei um par de pernas em uma oficina ortopédica – a única que havia em Cabul na época. Uma perna era três centímetros mais curta que a outra, mas pelo menos eu podia ficar de pé e dar alguns passos.

 

Sentia-me destruído física e psicologicamente.

 

Minha dúvida constante era " E agora? " . Sou o filho mais velho, sabia que meu pai tinha muitas expectativas com relação a mim. " E agora? E agora? " .

 

Para que eu não tivesse que ficar em cara, meu pai comprou uma cadeira de Madeira, um tanto cara. (No Afeganistão, em casa, em geral nos sentamos em almofadas e tapetes no chão.) Pus a cadeira na frente de casa, me sentei ali e olhava as pessoas, os carros, a vida. A vida da qual havia sido excluído. Em pouco tempo os vizinhos estavam tão acostumados a me ver sentado ali que me tornei um tipo de marco. Falavam sobre " a rua onde o aleijado está sentado " , com pena em suas vozes.

 

" E agora? " . Minha vida não poderia terminar daquela maneira.

 

Pedi a meu pai que me ajudasse a conseguir um emprego, qualquer emprego, mesmo sem salário. Não queria mais ficar sentado na cadeira. Mas em todos os lugares a resposta era negativa. Ninguém parecia acreditar que era possível que alguém como eu pudesse se quer pensar em pedir um emprego.

 

Passaram-se cinco longos e obscuros anos. Embora fosse a única ponte que me conectava ao mundo, eu odiava aquela cadeira.

 

Então, um dia, ouvi dizer que haviam aberto uma nova oficina ortopédica em Cabul, administrada por uma organização suíça chamada Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o CICV. Fui lá.

 

O que me surpreendeu de imediato foi que não senti como se tivessem pena de mim.

 

Consegui um par de pernas. Levei algum tempo para aprender a andar, mas consegui. Depois, arrisquei: pedi um emprego. A resposta foi " Por que não? Veremos " . Incrível! Não me disseram não!

 

O mais incrível foi o fato de que depois de poucas semanas, eles me ligaram e me convidaram para ser assistente de fisioterapia.

 

Não foi fácil. Tive que aprender o trabalho do zero e enfrentar a rivalidade de alguns funcionários não-deficientes, infelizes de terem um colega como eu. Mas continuei, tentando melhorar e não decepcionar as pessoas que haviam me dado a oportunidade de trabalhar.

 

Com muito esforço e um pouco de sorte, as coisas saíram bem e fui promovido.

 

Mas faltava algo.

 

Embora estivesse convencido de que os portadores de deficiência têm todo direito de reconstruírem suas vidas, me considerava um tipo de exceção.

 

Então, um dia conheci um homem chamado Mahmood e tudo mudou.

 

Mahmood sofreu dois acidentes com minas terrestres e perdeu as pernas e um braço. Com três filhos pequenos para alimentar, teve de pedir esmolar.

 

Em um terrível dia de 1994 nos conhecemos. Na época, com a guerra civil em Cabul, havia foguetes voando e conflitos nas ruas todos os dias. Nós o convidamos a vir ao centro e lhe demos um par de pernas. Ele veio. Levou várias semanas para aprender a andar.

 

Quase um ano mais tarde, ele voltou e nos disse: " Vocês me ajudaram a andar e lhes agradeço. Agora, por favor, me ajudem a não ser mais um pedinte. Tenho vergonha perante meus filhos, eles estão crescendo " . E disse algo que nunca esquecerei: “Sei que sou um homem destruído, mas se vocês me ajudarem, estou pronto para qualquer trabalho, mesmo que seja para me arrastar no lixo " .

 

Que tipo de trabalho poderia oferecer a um homem sem as pernas, com apenas um braço e analfabeto? Com muita pena dele, lhe disse " Veremos " , mas estava convencido de que era impossível.

 

Por acaso, havia uma vaga de carpinteiro na oficina na qual fabricamos pés para próteses. Um trabalho simples de colar e aparafusar as solas nos pés. Mas não tinha certeza se ele poderia fazê-lo. " Ele ficará decepcionado, melhor não tentar, sua deficiência é muito grave " , pensei. Mas no final, depois de algumas adaptações na oficina, decidimos chamá-lo para um mês de teste.

 

Depois de um mês, Mahmood era o trabalhador mais rápido da oficina.

 

Agora sei que minha " reabilitação " se completou naquele dia, graças a Mahmood. Com ele aprendi que ninguém é um " homem de struído " e todos têm direito a uma chance de reconstruir suas vidas. Eu não era a exceção. Aprendi que o preconceito e a falta de autoconfiança são mais perigosos que a deficiência em si.

 

Mas... Sempre há um " mas " . Não deixe que minha história, a de Mahmood e o bom trabalho do CICV e de outras organizações o façam acreditar que o problema dos portadores de deficiência no Afeganistão foi resolvido. Está longe disso.

 

Ao mesmo tempo em que houve progresso no campo da reabilitação física, ainda há muito a se fazer no campo da reintegração social.

 

O Afeganistão já deu importantes passos legislativos. Por exemplo, a nova constituição menciona e protege os portadores de deficiência e em 2008 a Lei da Deficiência foi, por fim, aprovada – observe que digo aprovada, não implementada! Mas prestar assistência a pessoas como eu ainda depende da boa vontade de ONGs e outras organizações. Até o momento, a assistência continua como um ato de caridade, não um direito.

 

Precisamos de apoio e intervenção da comunidade internacional para garantir que nossos direitos sejam claramente manifestados e implementados por lei, uma lei precisa e detalhada.

 

Esta é a única maneira. Do contrário, a maioria dos afegãos portadores de deficiências continuará sentado em algum lugar, excluído da vida à qual têm direito.

 

Esqueci-me de contar o que aconteceu com a cadeira que meu pai me deu. Quando consegui o trabalho, a queimei. Nunca lhe contei.