Cuidando dos civis encurralados na guerra – a história de um paramédico em Gaza
23-09-2009 Reportagem
Ashraf é paramédico do Crescente Vermelho palestino em Rafah, Gaza. Ele se considera um homem de sorte por poder ajudar as pessoas e salvar vidas e está orgulhoso do que faz. Mas ser paramédico em Gaza é um trabalho de risco.
Ashraf Al Khatib trabalha como técnico em emergências médicas em um galpão para ambulâncias do Crescente Vermelho palestino em Rafah, que atende a mais de cem mil habitantes. Rafah está localizada ao sul da Faixa de Gaza, na fronteira com o Egito, e com frequência é objeto de operações militares israelenses.
Como 11 anos de experiência, Ashraf já teve a oportunidade de ajudar muitas pessoas na área administrando primeiros socorros ou levando-as para o hospital. " Sinto que sou um homem de sorte por ter um trabalho tão especial que me permite oferecer algo que poucos podem oferecer em termos de salvamento de vidas " , disse Ashraf. " Estou orgulhoso de meu trabalho e boa parte de minha satisfação vem daí. Mas, sempre que saio para atender um chamado, também sinto medo " .
Ashraf está muito preocupado com a segurança. Por trabalhar em uma zona de conflito, ele sabe que é de vital importância que ele se identifique como profissional médico para não ser confundido com um combatente. " Sempre estou uniformizado, claro, e ligamos as luzes e a sirene da ambulância sempre que somos chamados. Também temos a bandeira do Crescente Vermelho palestino na ambulância para facilitar nossa identificação como pessoal médico. Amo meu trabalho e nunca desistirei, mas realmente gostaria de me sentir seguro quando o faço " .
Certamente, qualquer paramédico já passou por momentos difíceis. Mas Ashraf destaca um incidente no último conflito, no início do ano, em Gaza, quando trabalhava ininterruptamente para levar os feridos ao hospital. " Como moro perto da fronteira, levei minha esposa e meus dois filhos para a casa de meus sogros quando a invasão começou. Eles moram no ce ntro da cidade, que eu pensava que era mais seguro. Pouco depois da mudança, ouvíamos fortes explosões. Soube imediatamente que o bairro de meus sogros havia sido atingido e que haveria um grande número de vítimas. Corri para o local com minha equipe e fiquei chocado quando vi o que tinha acontecido. O bairro estava destruído por completo e as pessoas estavam nas ruas com terríveis ferimentos. Comecei a recolher os feridos, incluindo um primo meu, para levá-los para o hospital e, ao mesmo tempo, repetia para mim mesmo:'Agora você não tem tempo de ver se sua esposa e seus filhos estão a salvo, portanto continue com seu trabalho e se alguma coisa tiver acontecido com eles, eles serão atendidos pos seus colegas'. Foi o pior momento que já passei em meu trabalho. Estava tão dividido entre saber como estava minha família e ajudar os feridos que estavam na minha frente. Meu primo acabou morrendo depois no hospital, mas, por sorte, minha esposa e meus filhos saíram ilesos " .
Durante a guerra, muitos jovens se inscrevem como voluntários no galpão de ambulâncias do Crescente Vermelho palestino para ajudar como podem e alguns decidiram ser paramédicos e recebem treinamento. " Na verdade, a comunidade valoriza nosso trabalho " , disse Ashraf. " Às vezes, as pessoas estão irritadas porque não podemos salvar uma vida, mas isso provavelmente acontece com todas as equipes de paramédicos no mundo inteiro. Na maioria das vezes, recebemos muita gratidão e respeito. Eu mesmo valorizo muito isso, porque é um trabalho duro " .

