Caminho para Solferino
01-07-2009 Reportagem de Jean-François Berger
Entre 23 e 28 de junho, milhares de membros do Movimento que Henry Dunant fundou há 150 anos se encontraram no local onde aconteceu a batalha de Solferino, na Itália. Foram dias de emoção, com uma sutil mistura de história, amizade e reflexão.
| Veja também: ©ICRC/J.F. Berger James Ogiehor, administrador da Cruz Vermelha nigeriana. ©ICRC/J.F. Berger Solferino não guarda segredos para François Bugnion, ex-diretor do CICV para Direito Internacional. ©ICRC/J.F. Berger Leusel Meyer, socorrista sênior na filial de Püttlingen da Cruz Vermelha alemã (distrito de Saarbrücken). ©ICRC/J.F. Berger Os participantes de Fiaccolata descendo a ladeira da Piazza Castello. |
“Perdi a conta de quantas pessoas conheci em Solferino!”, exclamou James Ogiehor. Ele trabalha como administrador na Cruz Vermelha nigeriana em Abuja e essa foi sua primeira visita à Europa. “Estou realmente impressionado com a organização do campo. A recepção está sendo maravilhosa.”
Alexandre Fernandes tem 23 anos e é de Eure, norte da França. Ele veio a Solferino com um grupo de 300 jovens da Cruz Vermelha francesa e viu Solferino como uma oportunidade única para “conhecer a extraordinária experiência humana” concentrada no campo. As tendas brancas da “Aldeia Humanitária” de Solferino foram o lar temporário de mais de três mil participantes de todo o planeta que vieram celebrar os 150 anos do que agora é a maior organização humanitária laica do mundo.
Caminhando por entre as tendas, ônibus e caminhões com o emblema da Cruz Vermelha ou do Crescente Vermelho, é difícil imaginar que foi aqui que os exércitos Sardo-franceses e Austríacos passaram 15 horas massacrando uns aos outros no dia 24 de junho de 1859. “O incrível é que no dia anterior ao da batalha, nenhum dos dois exércitos sabia que o outro estava ali, ainda que somassem 300 mil homens”, comentou François Bugnion, ex-diretor para Direito Internacional no CICV. Ele trouxe um grupo de membros do CICV de Genebra para explorar os lugares históricos e percorrer os passos de Henry Dunant.
A Cruz Vermelha italiana montou a Aldeia Humanitária em um milharal cedido pelos agricultores de Solferino. A força por trás dessa obra-prima da organização era Roberto Antonino, que também é o chefe de logística da Sociedade Nacional. “Planejamos esse evento há um ano. Nos bastidores, um grupo de cerca de dez pessoas tem trabalhado duro com inúmeros voluntários para realizar a recepção, a cantina, a segurança, a logística e o transporte. Nas últimas semanas temos trabalhado uma media de 14 horas por dia. Os maiores desafios foram a comida e a parte elétrica. Mas agora está tudo resolvido!”
Cerca de 50 grandes tendas estavam disponíveis para os participantes das Sociedades Nacionais. Entes eles, Leusel Meyer, um entusiasmado colecionador de souvenirs da Cruz Vermelha e chefe de primeiros socorros na filial de Püttlingen da Cruz Vermelha alemã. “Você vê coisas maravilhosas aqui... Como gente do Crescente Vermelho palestino e do Magen David Adom de Israel dividindo a mesma mesa!”
Solenn Crepaux (26) participa de um intercâmbio regular entre voluntários das Sociedades da Cruz Vermelha francesa e alemã. Ela concorda com Leusel. “O que mais amo daqui é a ausência de fronteiras. Isso mostra o respeito mútuo que existe!”. Jean-Marie Henckaerts é um especialista legal do CICV em Genebra. Ele também vivenciou esse respeito quando chegou ao campo na tarde de sexta-feira e recebeu milhares de aplausos junto com outros corredores que deixaram o local de nascimento de Dunant cinco dias antes. Uma viagem de 500 km, durante a qual cada corredor percorria 20 km por dia. Eles correram o último trecho com um grupo da Cruz Vermelha francesa que havia deixado Paris no início da semana. “Não esquecerei nossa recepção!”
As ruas de Solferino estão mais acostumadas com os pés dos caminhantes que, uma vez por ano, realizam a “Fiaccolata”, uma procissão noturna com tochas que comemora o nascimento da ideia da Cruz Vermelha depois da terrível batalha de 24 de junho de 1859. Este ano, o trecho a ser percorrido era 10 km mais longo. A procissão saiu ao entardecer da Piazza Castello depois dos discursos de pessoas notáveis como o comissário especial da Cruz Vermelha italiana, o presidente do CICV e o prefeito de Solferino. Liderados por voluntários da Cruz Vermelha italiana, os participantes de todas as idades e nacionalidade se espalhavam por mais de um quilômetro na estrada, cumprimentados pelos locais, que haviam decorado suas casas com as cores da Cruz Vermelha e da Itália. Ao cair da noite, 13 mil participantes com suas tochas formavam um surpreendente rio de luz.
A marcha levou mais de duas horas, c om as estrelas saindo de trás das nuvens. Foi tempo suficiente para reconhecer o longo caminho percorrido pelo Movimento da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho nos últimos 150 anos.

