Sri Lanka: civis presos na batalha
29-04-2009 Reportagem
O confronto no nordeste do Sri Lanka continua pondo em perigo as vidas de milhares de civis. A seguir, três pessoas presas no conflito revelam para Sarasi Wijeratne, do CICV, suas dramáticas experiências e esperanças por um dia melhor.
Sentir falta da família
Sebastian, 29, vivia em um distrito vizinho a Mullaitivu com sua esposa e seu filho de três anos. Em setembro de 2008, ele deixou sua esposa e seu filho para trás e foi a Mullaitivu para uma reunião de família. No entanto, ele não pode deixar a área depois que a estrada principal de volta para casa foi fechada como conseqüência do crescente conflito. Ele ficou com sua mãe em Mullaitivu, onde era sua casa, mas no final foi deslocado por causa do conflito. Mãe e filho foram deslocados oito vezes desde outubro de 2008.
Sua mãe era sua companheira de viagem quando eles se alojaram em edifícios públicos, sob lonas e árvores, buscando refúgio do conflito. Fazendo uma cara feia pela dor que sentia enquanto arrumava a bandagem no braço, ele explicou que eles puderam comprar um pouco de comida com o que tinham de dinheiro e também receberam uma porção de alimentos doada pelo governo indiano para sustentá-los naqueles dias.
Durante o quarto deslocamento, a mãe de Sebastian foi ferida por um bombardeio e ele a levou para o “Hospital Mathalan”, nome dado pelos pacientes ao centro de saúde improvisado em Putumattalan. Depois de levar sua mãe para o “Hospital Mathala”, Sebastian continuou sua vida nômade até ser também ferido no braço por estilhaços.
" Fui para o'Hospital Mathalan'e me deram analgésicos. O'Hospital Mathalan'não tinha os medicamentos necessários para me tratar e depois de alguns dias, minha ferida começou a supurar e a cheirar mal”, conta.
Por sorte, menos de duas semanas depois de ter sido ferido, eles foram evacuados para Trincomalee, onde os médicos puderam operar seu braço sem demoras. “Perguntei sobre minha mãe e descobri que ela também tinha sido levada para o mesmo hospital para ser tratada, mas não sei onde ela está agora”, diz comum olhar distante, mas contente de saber que sua mãe está segura.
" Morei no exterior por muitos anos e voltei para o Sri Lanka depois do cessar-fogo de 2003 para cuidar de meus pais. Para minha infelicidade, voltei e fui pego pelo combate”, continua. Sebastian gostaria de deixar o passado para trás e está ansioso por se encontrar com sua família. “Tudo o que quero agora é estar com minha esposa e meu filho”, diz.
Ficar juntos
Rani, 52, e sua família estavam entre os evacuados de Putumattalan. Ela estava preocupada sobre como sua família se sustentaria agora que eles não estavam na área de conflito. Rani e seu marido acompanharam sua filha mais nova, que precisava tratar uma infecção. Uma outra filha, muito nova para ser deixada para trás, também pôde ir com eles. Ao contrário de muitos outros deslocados que foram separados de suas famílias, Rani e sua família conseguiram ficar juntos.
A família foi deslocada de sua casa em Mullaitivu no final de janeiro de 2009. “Deixamos para trás tudo, levamos apenas um pouco de comida e as roupas do corpo. De Mankulam, viajamos por aí procurando abrigo e segurança em outros cinco lugares nos arredores até finalmente chegarem a Putumattalan.
Tínhamos uma barraca que armávamos onde nos estabelecíamos e sobrevivíamos com o pouco de comida que tínhamos durantes as seis vezes que fomos deslocados. No final, acabou a comida e n ão tínhamos nada para comer. Fizemos nossa primeira refeição de arroz com curry dez dias depois que chegamos ao hospital”, disse Rani, enquanto brotavam lágrimas de alîvio em seus olhos.
“No momento, não posso falar do futuro, exceto que minha família e eu estamos longe do conflito e podemos proteger as vidas de nossos filhos e as nossas próprias”, concluiu.
Um pouco de esperança
Miriam estava ao lado da cama onde seu bebê de três anos dormia tranqüilamente. Sua filha mais velha estava na beira da cama.
Ela tenta lembrar como chegou à barca. Miriam, moradora de Jaffna, havia ido ao distrito de Mulaitivu em setembro de 2008 com seu marido e dois filhos para um festival da igreja. Ela estava grávida de seu terceiro filho. A família não pode voltar para casa depois que irrompeu o conflito e tiveram que se mudar para se manterem seguros antes de finalmente chegar a Putumattalan. A segunda filha de Miriam morreu quando eles se deslocavam, mas o nascimento do terceiro bebê trouxe um pouco de esperança para a vida de Miriam.
“Ainda não sei que nome darei a meu filho”, explica timidamente, acrescentando que seu marido, deixado para trás em Putumattalan, ainda não sabe sobre o nascimento de seu filho.
Para esses civis que receberam uma nova oportunidade de vida, suas vidas seriam melhores se seus desejos se realizassem: Sebastian, que espera um reencontro com sua esposa e seu filho que não vê há cinco anos; Rani, que quer um futuro melhor para sua família; e Miriam, que quer contar ao marido sobre o nascimento do filho deles e lhe dar um nome.

