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RDC: isolamento e vulnerabilidade em um canto remoto do mundo

15-02-2011 Entrevista

Milhares de vítimas da violência causada pelo conflito que afeta o país lutam para sobreviver em uma região grande e remota sem nenhum tipo de infraestrutura no norte da República Democrática do Congo (RDC). O CICV acaba de lançar uma operação para assistir mais de 90 mil pessoas por meio do fornecimento de sementes e ferramentas. O delegado Abdallah Togola, com quem realizamos uma entrevista telefônica via satélite, descreve as vidas dessas famílias e explica como é difícil levar ajuda a essas áreas isoladas.

     
 
   
Abdallah Togola 
           

    Veja também:

   
   
  • Comunicado de imprensa de 14-2-11
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    ©CICV 
       
    Ango. Voluntários da Cruz Vermelha Congolesa vão de bicicleta às aldeias para cadastrar as pessoas que receberão a assistência. 
                   
        ©CICV      
       
        Ango. Um grupo de moradores locais limpa a pista do aeroporto.      
               

  Como está a situação humanitária atualmente no Alto e Baixo Uele?  

Desde 2008, quase todos os habitantes das áreas de Ango, Banda, Doruma e Nyangara foram obrigados a se mudar, em alguns casos repetidas vezes, para escapar da violência relacionada com a presença do Exército da Resistência do Senhor (LRA). Algumas famílias agora voltaram para suas aldeias, mas vivem com medo de novos ataques. Muitas pessoas não têm notícias de seus parentes.

A maioria das famílias nessa região extremamente isolada, sem nenhum tipo de infraestrutura, sobrevive com menos de 50 francos congoleses (menos de 0,10 de dólar) por dia. Em uma aldeia visitada recentemente pelo CICV, os habitantes não tinham nada para comer, além de tubérculos selvagens. Depois de perder três colheitas seguidas, eles não têm dinheiro para comprar roupa ou utensílios para cultivar a terra.

  O senhor poderia nos contar um pouco sobre como é a vida de uma família na região?  

Estou pensando em uma família que originalmente veio de Ango. O casal tem cinco filhos. Antes, tinham dois terrenos. No primeiro, que estava a três horas a pé de onde moravam por um caminho que atravessava a floresta, plantavam mandioca e banana. No segundo, um pequeno lote perto de sua casa, mantinham uma horta.

Em setembro de 2009, a família teve de fugir e abandonar a colheita e seus pertences. Quando voltaram à aldeia meses depois, viram que seus campos haviam sido devastados e os utensílios, roubados. Agora cultivam apenas o pequeno lote, pois temem se aventurar na fl oresta.

Para complicar, a família agora tem 17 bocas para alimentar, pois as duas irmãs do pai, junto com seus filhos, moram com eles, depois de fugirem de uma outra aldeia na região.

Conheço muitos casos assim nesta região, onde as pessoas deslocadas e residentes quase sempre vivem em com condições igualmente precárias.

  Que impacto esse isolamento tem sobre as vidas da população nessa região?  

Esse isolamento tem consequências adversas na vida diária dos moradores que sentem como se tivessem sido abandonados por todos.

A falta de estradas transitáveis e de meios de comunicação tem um impacto na economia local. Os agricultores transportam sua produção de bicicleta ou de canoa e conseguem vender apenas 10% ou 15% dela. Portanto, têm pouco ou quase nada de dinheiro para comprar coisas essenciais, como roupas ou utensílios de cozinha, ou pagar a escola dos filhos.

Para conectar alguns desses lugares com o mundo, o CICV, com o apoio a Cruz Vermelha Congolesa, financiou a reabilitação de algumas estradas e rodovias em Banda e Ango. A população local participou desse projeto por meio de um programa de criação de trabalhos de curta duração administrados pelo CICV ( " dinheiro por trabalho " ). Também foi uma forma de compensar a perda de renda e de recursos como consequência da violência e da insegurança.

  Que medidas de assistência o CICV lançou esta semana com a Cruz Vermelha Congolesa?  

Nosso objetivo principal é ajudar a recuperar a economia local. Com relação a isso, além de administrar projetos de reabilitação da infraestrutura, também estamos distribuindo sementes e ferramentas agrícolas para cerca de 90 mil moradores e pessoas deslocadas em Alto e Baix o Uele. Cada família receberá 20 quilos de sementes de amendoim e 20 quilos de sementes de arroz de rápido crescimento, que poderá ser colhido em 90 dias. Nosso objetivo é assegurar que as famílias possam se autoabastecer o suficiente para se alimentarem a partir da próxima colheita em maio|.

Ao mesmo tempo, o CICV mantém conversações com o Programa Alimentar Mundial com o objetivo de possivelmente distribuir rações alimentares até que o ciclo agrícola seja retomado.

Também estamos distribuindo material de pesca para 500 famílias em Baixo Uele, que tradicionalmente vive dessa atividade, mas que perderam tudo depois de fugirem de suas aldeias.

  Quais são as principais dificuldades que o senhor encontrou durante a realização desta operação?  

Alguns dos principais desafios, à parte da segurança, são os inúmeros obstáculos logísticos.

Em Baixo Uele, por exemplo, queremos enviar 375 toneladas de sementes e equipamentos para 7 mil famílias na região de Ango e para 1,7 mil famílias na região de Banda. Durante três semanas, para cadastrar as pessoas que receberão a assistência, as equipes e os voluntários do CICV da Cruz Vermelha Congolesa estiveram viajando para as aldeias isoladas acessíveis apenas de moto ou de bicicleta.

A assistência deve ser despachada por avião a Ango e Banda. Isso exigirá cerca de 60 viagens de ida e volta, 4 a 5 vezes por dia. Em Ango, depois de a aeronave ser descarregada, três caminhões seguirão para os pontos de distribuição. Como terão de atravessar rios e passar por áreas tomadas pela selva, serão precedidos de equipes que realizarão consertos provisórios nas pontes e nas estradas.

É uma operação complexa que, esperamos, traga benefícios às pessoas que quase sempre têm de lidar com essa situação sozinhas.




Foto

Ango. Voluntários da Cruz Vermelha do país vão em bicicleta às vilas para cadastrar as pessoas que receberão assistência. 

Ango. Voluntários da Cruz Vermelha do país vão em bicicleta às vilas para cadastrar as pessoas que receberão assistência.
© CICV