Terremoto no Haiti: prioridades na saúde e desafios em desastre de grande dimensão
15-01-2010 Entrevista
Ao mesmo tempo em que o CICV concentra seus esforços em levar assistência médica aos mais vulneráveis e avaliar as necessidades de água, também luta para apoiar o sistema de saúde em ruínas. Elisabeth Le Saout, chefe-adjunta da unidade de saúde do CICV, descreve as prioridades na saúde e os desafios quando acontece um desastre.
Como está a situação de saúde em Porto Príncipe e em outras áreas afetadas pelo terremoto no Haiti?
Quando acontece um terremoto, em geral, há muitos feridos e a s pessoas precisam ser tratadas o quanto antes para poderem sobreviver. Além disso, as pessoas continuam enfrentando seus problemas de saúde'rotineiros'e o fato de não poderem receber assistência devido à crise só piora a situação da saúde.
Sabemos que grande parte dos centros de saúde na área afetada foi destruída durante o terremoto. Faltam muitos médicos e enfermeiros nos centros de saúde que foram avaliados pelo CICV e, portanto, muitos estão funcionando com uma capacidade inferior ou simplesmente não funcionam. Infelizmente, esse desastre atingiu um sistema de saúde já sobrecarregado e com poucos recursos.
Como o fornecimento de água foi interrompido pelo sismo, tememos que a diarreia possa se espalhar, uma vez que a transmissão dessa doença está relacionada com a ingestão de água contaminada.
Quando um terremoto dessa magnitude acontece, quais são as necessidades médicas imediatas da população?
As prioridades são retirar os sobreviventes dos escombros e salvar vidas. Essas são as principais preocupações nos dias seguintes ao terremoto. É importante lembrar que os primeiros-socorristas, em geral são vizinhos e pessoas treinadas em primeiros socorros da comunidade local, são os que salvam a maioria das vidas.
Outra importante prioridade é estabilizar os feridos e derivar para cirurgias os necessitados o quanto antes para limitar o risco de infecção ou mesmo de gangrena ou tétano. O acesso à assistência básica para os que não estão feridos, por exemplo, grávidas, e os que sofrem de doenças graves, é muito importante também.
As necessidades básicas dos sobreviventes devem ser atendidas o mais rápido possível, como abrigo, água potável e alimentos. Do contrário, as pessoas ficarão doentes, em geral, com diarreia e infecções respiratórias. As crianças com menos d e cinco anos são as mais vulneráveis e as mais propensas a adoecerem. O fato de as pessoas serem obrigadas a se reunir em áreas que não estão equipadas para recebê-las aumenta o risco de doenças.
O apoio psicológico às vítimas e àqueles que venham a desenvolver distúrbios psicológicos é outra prioridade. Deve-se dar atenção no momento oportuno aos socorristas também, que precisarão de apoio psicológico devido à tensão causada pelas situações que enfrentam.
Em que tipo de assistência de saúde o CICV está se concentrando e quais são alguns dos desafios que a organização está enfrentando no terreno?
O CICV se concentra, primeiramente, no apoio imediato aos centros de saúde que estão em funcionamento com a doação de material para curativos, remédios e kits de material médico. O CICV fez doações para cinco grandes estruturas e para alguns centros de saúde montados em áreas de grande concentração de sobreviventes do terremoto. Em paralelo, o CICV está fazendo uma rápida avaliação das necessidades sanitárias da população, concentrando-se, em princípio, nos centros de saúde e nas penitenciárias. O CICV já visitava os detidos com regularidade nessas penitenciárias antes do terremoto para monitorar suas condições de vida e o tratamento que recebem.
Estão planejadas as avaliações das necessidades básicas das populações afetadas fora de Porto Príncipe.
Os profissionais humanitários do CICV estão enfrentando muitos desafios no terreno, sobretudo com relação à segurança e ao acesso às pessoas mais vulneráveis. Com relação ao acesso, eles enfrentam a escassez de combustível, eletricidade e as estradas que estão completamente bloqueadas pelos escombros.
Outros desafios incluem a falta de pessoal do Ministério da Saúde para administrar os hospitais que estão funcionando e dificuldades de faze r com que os suprimentos entrem em Porto Príncipe. Por fim, existe o desafio comum de estabelecer mecanismos de coordenação entre os diferentes atores humanitários depois de um desastre dessa magnitude.
Como o CICV está trabalhando com a Cruz Vermelha Haitiana, outras unidades das Cruz Vermelha e organizações humanitárias com relação à saúde e assistência médica?
O objetivo do CICV é agir onde quer que nossa presença e experiência de terreno possam ajudar a fazer a diferença para as vítimas e suas famílias, como parte de uma resposta coordenada do Movimento liderado pela Cruz Vermelha Haitiana e a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
O CICV montou uma página especial para os esforços da Cruz Vermelha de restabelecer o contato entre familiares separados em decorrência do terremoto e suas consequências. ( Laços familiares )
O CICV apoia o programa de Primeiros Socorros da Cruz Vermelha Haitiana desde 2007 com enfoque particular na cidade de Porto Príncipe, para fortalecer as habilidades dos voluntários de primeiros socorros e melhorar seus equipamentos. Eles podem cuidar dos feridos e dos doentes e transportá-los para centros de saúde de referência. A Cruz Vermelha Haitiana prestou serviços de primeiros socorros imediatamente depois do terremoto e continua fazendo isso nos centros de saúde para onde os feridos são levados. Isso acontece graças à mobilização de sua equipe e seus voluntários de primeiros socorros, que também foram diretamente afetados pelo sismo.
O CICV participará da estrutura de saúde que será criada para coordenar o apoio ao sistema de saúde do Haiti.

