Mulheres e deslocamento: resistência na adversidade
02-03-2010 Entrevista
O deslocamento de populações é uma das mais graves consequências dos conflitos armados de hoje e afeta as mulheres de diversas maneiras. Mas, longe de serem vítimas indefesas, as mulheres são engenhosas, resistentes e corajosas ao enfrentar as dificuldades, explica a conselheira do CICV sobre mulheres e guerra, Nadine Puechguirbal.
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©CICV/VII/J. Nachtwey/PH-E-00298Uma mulher e seu bebê deslocados pelo conflito na ilha de Mindanao, nas Filipinas, esperam atendimento em um posto médico.©CICV/VII/A. Kratochvil/GE-E-00550Prefeitura de Dmenisi, Geórgia. Uma mulher deslocada aguarda roupa e sapatos distribuídos pelo CICV.©CICV/B. Maver/YE-E-00719Província de Amran, Iêmen. Uma mulher deslocada devido aos combates em Iêmen recebe artigos de ajuda distribuídos pelo CICV através do Crescente Vermelho no Iêmen.©Cruz Vermelha Britânica/L. Daines/SD-E-01558Mulheres em um acampamento para deslocados em Darfur, Sudão, carregam água potável fornecida pelo CICV.
Por que, no Dia Internacional da Mulher, o CICV está aumentando a conscientização sobre as mulheres deslocadas por conflitos armados no mundo inteiro?
Não queremos apenas chamar a atenção para a situação destas mulheres, mas também reconhecer sua enorme coragem e resistência para garantir a sobrevivência de suas famílias em condições hostis e desconhecidas.
Penso que é igualmente importante aumentar a conscientização quanto às específicas ameaças que as mulheres enfrentam como resultado do deslocamento. Muitas vezes as mulheres e as crianças são reunidas como o grupo mais vulnerável. No entanto, são dois grupos muito diferentes, cada um com vulnerabilidades e necessidades específicas.
As mulheres não estão totalmente desamparadas. Nossa ideia é deixar de lado suposições e estereótipos e, em vez de chamar a atenção para as necessidades específicas das mulheres, ou a vulnerabilidade em período de guerra, queremos marcar a notável força que elas mostram ao proteger e apoiar suas famílias e encontrar maneiras para lidar com o sofrimento.
Por que nos conflitos armados as mulheres deslocadas muitas vezes correm mais riscos do que os homens deslocados?
A esmagadora maioria dos conflitos armados é iniciada, organizada e liderada por homens, porém as mulheres representam uma grande parcela das vítimas de guerra. Durante um conflito armado, os civis que não participam das hostilidades são muitas vezes obrigados a fugir de suas casas para evitar serem encurralados pela violência. As mulheres e suas fa mílias são obrigadas a deixar suas casas e comunidades. No meio do pânico e do caos, muitas mulheres ficam sozinhas para cuidar dos filhos. Imagine a dor de ser brutalmente arrancada do lugar que talvez seja o mais seguro que você conheceu na sua vida.
De repente, as mulheres têm de assumir todas as responsabilidades diárias para garantir sua própria sobrevivência e a de suas famílias, o que muitas fazem de acordo com sua desenvoltura e coragem. As mulheres deslocadas muitas vezes têm que percorrer longas distâncias para encontrar água, alimentos, lenha, remédios e outros itens essenciais. Ao fazê-lo, se expõem ao grande risco da violência sexual, maus-tratos e lesões por minas ou material bélico não detonado, entre outros perigos. O ônus da responsabilidade familiar, somado à angústia e ao trauma da perda repentina, também tem um enorme peso na saúde das mulheres.
Nas culturas nas quais as mulheres só podem se deslocar acompanhadas por um parente do sexo masculino, a separação do marido pode restringir a habilidade da mulher de fugir das hostilidades. Ela também pode não ter os documentos de identificação necessários para atravessar barreiras ou fronteiras ou dinheiro para pagar o transporte. Existem inúmeros relatórios sobre mulheres que são assediadas nos postos de fronteira e postos de controle.
Um campo ou uma comunidade de deslocados pode oferecer a essas mulheres uma seguranç a relativa, mas o problema não termina aí. Pelo contrário, o campo pode apresentar novos riscos e encargos. Considerando que, para se alimentar e partilhar recursos, as mulheres podem contar com parentes, a separação de suas famílias e comunidades as priva deste apoio.
A falta de recursos pode levar a situações que, por questão de gênero, as mulheres são relegadas ao último lugar em termos de acesso a alimentos ou água, ou seja, comem menos e por último. Há também o perigo real da troca de favores sexuais por comida ou outros bens essenciais.
A falta de segurança e privacidade nos campos pode expor as mulheres a problemas de saúde, como por exemplo o aumento do risco de violência sexual. O trauma de sua experiência, lesões relacionadas a conflitos, violência sexual e gravidez não planejada, inevitavelmente, aumentará a necessidade de cuidados médicos. No entanto, a maioria dos deslocamentos pode dificultar o acesso aos cuidados de saúde de qualidade quando elas mais precisam.
Em vez de serem vítimas passivas, as mulheres em situações de conflito muitas vezes encontram maneiras engenhosas de lidar com a situação. A senhora poderia dar exemplos?
No geral, a mídia retrata as mulheres como vítimas passivas de combate, com uma história comovente para tocar e influenciar a opinião pública e ganhar audiência. Mas eu acho que, para poder compreender plenamente seu sofrimento, sem desprezá-lo, é importan te ir além desta leitura na qual as mulheres muitas vezes são vítimas da terrível violência e crueldade em períodos de guerra.
Os delegados do CICV muitas vezes testemunham a notável coragem das mulheres deslocadas. Elas exploram recursos disponíveis, encontram comida e abrigo para seus dependentes e se organizam em associações, a fim de ter uma voz mais forte e unificada.
Às vezes vêm à tona histórias angustiantes do Congo sobre a violência sexual contra as mulheres e sobre algumas que sobrevivem para se sustentarem – e quase sempre sustentarem seus filhos nascidos de seu calvário e rejeitados pelas famílias –, demonstrando a força delas. Profissionais de assistência psicossocial em Kivu do Norte, apoiados pelo CICV, aconselham as mulheres vítimas de estupro e as ajudam a reconstruir suas vidas. A organização possibilita às mulheres realizarem projetos que geram renda para fortalecer sua autossuficiência.
No Iraque, as mulheres deslocadas são muito habilidosas e determinadas para garantir a sobrevivência de suas famílias. Privadas das fontes tradicionais de renda, elas são obrigadas a assumir novos papéis - desafiando as expectativas sociais e com todos os meios possíveis, incluindo o trabalho manual - para ganhar dinheiro e colocar comida na mesa.
As mulheres desempenham um papel vital para manter a saúde e bem-estar de sua família e comunidade. Seu papel na prevenção e no cuidado de enfermidades e doenças é essencial quando o acesso à assistência médica é limitado. Durante emergências, as mulheres podem ajudar no parto em suas comunidades quando o pessoal médico treinado está fora de alcance. As parteiras tradicionais podem oferecer cuidados de saúde reprodutiva para muitas mulheres deslocadas e seus bebês.
Aqueles que procuram ajudar os deslocados internos devem prestar maior atenção às mulheres deslocadas. O que o CICV faz com relação a isso?
Em primeiro lugar, o CICV está ciente de que nos campos de refugiados a voz da mulher muitas vezes não é ouvida, ou seja, suas necessidades específicas são negligenciadas. As mulheres costumam evitar falar abertamente sobre suas necessidades mais pessoais, por isso é vital criar um espaço seguro para o diálogo sobre as preocupações delas. Para garantir que as mulheres não sejam nem ignoradas nem exploradas, o CICV as envolve cada vez mais no planejamento, execução e avaliação de programas.
Reconhecemos também que o conceito de mulheres como beneficiárias passivas é insuficiente e pode fazer com que elas sejam excluídas dos esforços humanitários. No entanto, deixar de consultar as mulheres sobre suas necessidades ou de envolvê-las em projetos de planejamento afeta a qualidade, eficiência e eficácia da assistência. O CICV sabe que as mulheres são, em geral, responsáveis pela necessidade de alimentar suas famílias. Por isso a contribuição delas é fundamental para determinar o tipo e a quantidade de alimentos que a organização distribui, assim como a localização dos pontos de distribuição de alimentos, por questão de segurança e de fácil acesso.
A experiência mostrou que quando as mulheres são diretamente responsáveis pela alimentação, suas opiniões e prioridades diferem das dos homens que pretendem falar por elas. Isto é uma realidade em Casamance, no Senegal, onde as mulheres participam nas reuniões da comunidade. Nessas reuniões, o CICV garante que elas sejam ouvidas e descobriu que a visão delas reforça nossa capaci dade de responder às necessidades da população em geral.
Ao utilizar o Dia Internacional da Mulher para chamar a atenção para as mulheres deslocadas, o CICV está dando voz às que responderam ativamente com seu compromisso, revelando assim a força e resistência delas para superar o sofrimento e, no fim, se fortalecerem.
Como o CICV leva em conta o fato de que as necessidades das mulheres são muitas vezes diferentes das dos homens ou das crianças?
Reconhecemos as formas específicas em que conflitos e deslocamentos afetam as mulheres: os perigos específicos e as ameaças e as transformações sociais que podem ocorrer quando as mulheres assumem novas responsabilidades. Obviamente, mulheres, homens, meninos e meninas são expostos a riscos diferentes. Enquanto os homens constituem a grande maioria dos mortos, detidos ou desaparecidos durante a guerra, as mulheres são cada vez mais alvos como civis e expostas à violência sexual.
Desenvolvemos uma compreensão mais sensível e cuidadosa dos papéis, responsabilidades e experiências das mulheres e dos homens. Isto é o que permite adequar nossa resposta com mais precisão às necessidades específicas das mulheres e dos homens em períodos de conflito.

