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Nos céus do Sudão

31-05-2005 Reportagem

Um dia na vida de uma equipe médica de evacuação quando ela embarca para uma viagem que, entre ida e volta, tem 2 mil quilômetros, entre o norte do Quênia e algumas das regiões mais remotas do sul do Sudão, uma área com o dobro do tamanho da França. O funcionário do CICV Paul Conneally faz um relato.

 

© CICV/ Loukas Petridis / v-p-sd-n-00211-35 
   
 
         

Embora a luz do amanhecer ainda esteja fraca, o aeroporto de Loki está fervendo com o movimento. Os motores de dois aviões de carga – aeronaves Antonov, Hercules e Illuyshian – lançam seus rugidos e, um por um, decolam para o norte, em direção ao vasto território que é o sul do Sudão.

Nossa aeronave é um Hawker Sidley 748, uma das últimas deste modelo produzido nos idos de 1976. Hoje o avião está equipado para transportar cerca de 30 pessoas com espaço suficiente reservado para uma carga de grande porte com barris de combustível, caixas de vários medicamentos e canos para projetos de água e saneamento.

Nossa missão hoje, numa manhã de meados de março, é uma operação Medevac (evacuação médica) para transportar os pacientes que receberam alta do hospital cirúrgico e centro ortopédico Lopiding, do CIC V, de volta para casa em suas cidades e vilarejos em alguns dos rincões mais remotos do sul do Sudão. Uma vez na região, embarcaremos mais pacientes que estejam necessitando de cuidados médicos urgentes.

Nos últimos tempos, durante o auge no conflito, muitos dos pacientes levados para o hospital Lopiding eram feridos de guerra; hoje, com a paz que se avista no horizonte, a maior parte dos casos diz respeito às pessoas feridas em confrontos tribais ou mulheres que passam por complicações na gravidez, picadas de cobra e várias doenças que podem colocar a vida em risco.

As operações Medevac começaram no início deste trágico conflito que se desenrola no sul do Sudão há mais de 20 anos, custando a vida de cerca de 2 milhões de pessoas. Outros tantos milhões encontram-se deslocados em todo o Sudão (aproximadamente 2 milhões apenas em Cartum e nas redondezas da capital) e ao longo das fronteiras com os países vizinhos.

Minha companheira de viagem, Eunace, uma enfermeira queniana muito experiente e de aparência jovem, está a cargo da operação hoje. Ela se certifica de que todos estejam a bordo com segurança, que qualquer pequeno problema de saúde possa ser rapidamente resolvido e, importante, que ninguém desembarque na escala errada!

Os passageiros vão desde recém nascidos até mulheres idosas. Um frêmito pode ser sentido a bordo quando o Hawker Sidley vai se preparar para decolar. Tudo passa por uma checagem dupla e depois que Eunace faz o sinal positivo com o dedão, rugimos e balançamos para o noroeste no céu avermelhado, em direção a nossa primeira escala, Maridi, na província de Equatoria Ocidental.

Quando atravessamos a fronteira com o sul do Sudão, as lindas Montanhas Didinga logo se destacam em meio a um grande vazio caracterizado por grossos arbustos de acácia que se espalham por sobre o território do vale. Depois de 100 minutos de vôo, tocamos o solo em Maridi, um p equeno assentamento no norte, depois da fronteira com a República Democrática do Congo.

Várias pessoas deixam cuidadosamente o avião. Ouve-se uma ovação da multidão dos parentes e amigos que estão à espera. Um homem que deve ter por volta de 30 anos, contorcendo-se de agonia com uma grave fratura na perna, é trazido a bordo. Eunace examina para ver se ele está amarrado de forma correta e administra alguns remédios para aliviar a dor a fim de facilitar a sua viagem. Logo estamos novamente no ar e Maridi vai desaparecendo lá embaixo enquanto continuamos rumo noroeste para Tambura, um vilarejo perto do extremo sudeste da República Centro Africana.

Ao chegar a Tambura novamente fazemos uma parada rápida e substituímos os saudáveis pelos doentes. Um jovem chamado John Paul entra em uma bicicleta para nos saudar.

John Paul me conta que Tambura está prestes a ser tomada pela doença do sono, uma enfermidade dolorosa transmitida pela mosca tsé-tsé. Se não for tratada, provoca morte certa. A organização MSF (Médicos sem Fronteiras) da Espanha está fazendo o possível para combater a doença, nos conta John Paul, mas o tratamento é muito complicado e ele sente que não será fácil.

Vamos agora para Chelkou, um ponto muito remoto do Sudão (não distante do sul de Darfur) e uma localidade onde o CICV apóia um centro básico de saúde há muitos anos.

Baixando para a poeirenta pista de pouso, levamos uma sacudida quando paramos e somos imediatamente cercados pela comunidade local. Somos recebidos por Mariano Nor, um jovem de olhos claros que dirige o posto de saúde.

Vamos conhecer a clínica a pé com Mariano. Ele explica que esta instalação presta serviços para 39 vilarejos e para cerca de 10 mil pessoas. Cerca de 20 minutos mais tarde, chegamos a uma instalação bem mantida e movimentada. A equipe e os pacientes se reúnem para nos receber e estão muito conten tes em nos mostrar o centro.

Daniel Nok, o médico residente, resplandecente em um uniforme azul claro, me convida para sua sala de consultas (um tradicional tukul, uma cabana com teto de palha e piso de concreto), onde ele está cuidando de uma menina que foi picada por uma cobra. Daniel afirma que eles conseguiram tratar da menina a tempo e nem sua perna e nem sua vida correm perigo.

No complexo há também uma farmácia, mais salas de consulta, a recepção e o centro de cadastramento, uma sala de reuniões e uma bomba manual instalada pelo CICV para a comunidade local. A clínica parece ser o centro da vida do vilarejo de Chelkou, com todo o tipo de pessoas sentando em volta e conversando. Jovens meninos descalços, com os corpos cobertos de cinzas para espantar os mosquitos, estão particularmente encantados com a nossa visita e acotovelam-se entre si para conseguir a melhor visão.

Duas horas mais tarde estamos de volta no nosso Hawker Sidley e, enquanto o avião estremece no céu, nossos novos passageiros sorriem, sem dúvida esperando ansiosamente por ingressar no caminho da saúde plena.

Lá embaixo, uma paisagem árida e seca se acortina enquanto nos dirigimos para o sul. A terra é marcada por acácias espinhosas e pelos leitos secos de rios, que serpenteiam como cobras, servindo como um constante lembrete sobre a luta diária para conseguir água nesta parte do mundo.

Passamos através dos vilarejos de Thiet e Mapel, deixando ex-pacientes e embarcando novos casos para tratamento urgente em Loki. Em cada lugar, caixas de remédios são deixadas com o representante da clínica de saúde local.

Em Mapel, uma vítima de uma picada de cobra em estado de semiconsciência é trazida a bordo e um cheiro asfixiante e rançoso vindo da carne podre enche a cabina do nosso avião. À noite, mais tarde, em uma operação para salvar sua vida, a perna da menina, em estado de decomposição, será amputada no hospital Lopiding. Ela também receberá uma prótese ortopédica produzida na oficina do hospital.

Em seguida aterrissaremos na cidade de Yirol, onde a aeronave será abastecida.

Ao sobrevoar o rio Nilo, me dou conta de que estamos voando para o sul, em direção ao nosso destino final. Lá embaixo, os telhados trêmulos de alumínio cintilam para o céu da cidade de Juba, um grande centro urbano no sul do Sudão. Além de Juba, as planícies de musgo das enchentes do Nilo se prolongam por longas distâncias até que a paisagem muda novamente em amoreiras silvestres, acácias e pedras.

Depois de aterrissar com segurança em Loki, uma hora e meia depois, nosso piloto diz que percorremos 2 mil quilômetros durante nossa viagem de 12 horas. Ambulâncias do CICV, enfileiradas por Eunace, esperam no asfalto da pista de pouso de Loki para transportar os pacientes para o hospital Lopiding, na periferia da cidade.

Eles serão tratados por uma equipe dedicada de cirurgiões e enfermeiras que vêm servindo os doentes e feridos pelo conflito no sul do Sudão desde julho de 1987, quando o CICV estabeleceu pela primeira vez o hospital. Desde aquela época, mais de 80 mil pessoas passaram pelas portas do Lopiding, receberam alta e voltaram para casa, por meio da operação Medevac, conduzida pelo CICV.

A operação continua a ser um serviço essencial em uma região tão grande, onde o acesso aos cuidados de saúde, especialmente às cirurgias, é um desejo distante para muitos.