Chifre da África – boletim do CICV N°. 02 / 2006
05-04-2006 Relatório de operações
Último relatório das atividades do CICV no terreno. Este boletim traz uma atualização sobre a resposta do CICV à seca nos países atingidos. Só na Somália, cerca de 1,2 milhão de pessoas estão sendo beneficiadas pela ajuda do CICV.
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O grande número de mortes registradas nos rebanhos, de falta de água e de cereais em virtude das colheitas malsucedidas continua a ameaçar as vidas de milhões de pessoas nas áreas atingidas pela seca na Somália, Etiópia e Quênia. De fato, a situação está piorando ainda mais, tendo em vista que as condições que apontavam para uma situação de carência alimentar estão ficando evidentes no sul da Somália, no sudeste da Etiópia e no norte e nordeste do Quênia. A crise pode se transformar numa catástrofe se não chover o suficiente nas próximas semanas.
A gravidade da seca atingiu proporções fora do comum na região de Gedo, no sul e no centro de Juba e em algumas áreas das regiões de Bay e Bakool. Foram observadas algumas chuvas em poucas localidades, mas elas não são suficientes para que se tenha uma colheita bem sucedida em julho. A população continua a precisar urgentemente de ajuda, devido a escassez e ao acesso limitado de água e comida.
A maior parte da água coletada das chuvas (126 das 130 coletas efetuadas em torno de Waajid, na região de Bakool) é seca ou contém pouca água. Alguns poços escavados manualmente ainda contêm água, mas o nível está caindo rapidamente e a qualidade está piorando em virtude do nível elevado de salinidade da água coletada na superfície.
Prevê-se que a produção total anual de cereais (junho 2005 – maio 2006) deva ser a mais baixa ao longo de uma década. Com poucas opções de migração para os pastores, uma vez que as áreas em outras regiões para as quais eles costumam se dirigir enfrentam condições semelhantes ou até piores e que tiveram várias colheitas fracassadas, os preços dos cereais tiveram um aumento significativo e as condições do comércio pioraram. As perspectivas de obter renda são, portanto, limitadas. A maioria das famílias não pode comer mais de uma vez por dia.
A mortalidade dos rebanhos, especialmente do gado, é significativa nos vales de Gedo e Juba. Um número de pessoas em proporções fora do comum está migrando para áreas ribeirinhas como a região sul de Shabelle, em busca de água e comida. No entanto, mesmo lá a seca está sendo sentida. A água do rio Shabelle é usada para beber e cozinhar, mas o rio também recebe o lixo de cidades maiores como Belet Weyne, que representa riscos para a saúde das pessoas e dos animais. Tendo em vista que o nível do rio é muito baixo, suas águas estão ficando cada vez mais contaminadas.
A atual crise é particularmente aguda porque acontece após anos de conflitos armados, que desgastaram a capacidade de a população enfrentar os problemas. As condições precárias e a violência forçaram milhares de famílias a abandonar suas casas. Na semana passada, combates intensos na capital, Mogadiscio, trouxeram mais sofrimento para a população e mostram como a situação na Somália se tornou volátil. Mais de 220 vítimas dos combates foram tratadas nos hospitais que recebem apoio do CICV.
Resposta do CICV
O CICV continua a conduzir várias atividades nas regiões atingidas, em parceria com a Sociedade Somali do Crescente Vermelho. O principal objetivo de curto prazo é garantir que as pessoas tenham suficiente água e comida. Um dos objetivos de longo prazo é ajudar as pessoas a se preparar para a estação chuvosa e para o plantio, melhorando a coleta da água da chuva e distribuindo sementes.
Projetos aqüíferos (Bakool, Bay, Gedo, regiões sul e central de Juba)
Melhoria de poços e da coleta da água da chuva
Transporte da água para áreas remotas
Distribuição de tambores para armazenamento de água
Número de beneficiários: mais de 850 mil pessoas
Oito equipamentos de coleta da água da chuva estão recebendo melhorias em Bakool e Bay. O CICV está ensinando as comunidades a limpar a terra que entrou nos equipamentos durante a última estação chuvosa. Entre 80 e 100 pessoas estão trabalhando em cada projeto. Elas recebem os instrumentos necessários como machados, alavancas, baldes e sacos de areia, além de três dólares por dia. Este dinheiro é suficiente para que mantenham suas famílias alimentadas.
Distribuição alimentar (Bakool, Bay, Gedo e sul de Shabelle)
O CICV e a Sociedade Somali do Crescente Vermelho distribuíram comida (milho, feijão e óleo de soja) para cerca de 270 mil pessoas. As operações de distribuição vão continuar em certas áreas em coordenação com outras agências humanitárias até a próxima colheita, em julho.
Distribuição de utensílios domésticos (região central de Juba)
Depois que um incêndio ocorrido por acidente destruiu as casas e as propriedades de cerca de 7.500 pessoas em Salagley, o CICV e a Sociedade Somali do Crescente Vermelho distribuíram 21 toneladas e 400 quilos de utensílios domésticos. Cada família recebeu um encerado, três cobertores, um kit de cozinha, um enlatado e roupas.
Distribuiçao de sementes e instrumentos agrícolas (Galgaduud, Hiraan, Bakool, Bay e sul de Shabelle).
Foram distribuídas sementes de ervilha para gado, gergelim e milho e instrumentos agrícolas para mais de 120 mil agricultores.
Aquisição de animais
Compra-se animais (principalmente cabras e ovelhas) dos pastores enquanto eles ainda estão em boas condições, para serem imediatamente abatidos. A carne é distribuída fresca para as pessoas em condições de vulnerabilidade na região ou é seca ao ar livre para ser transportada para áreas onde foi constatada falta de proteína na dieta alimentar da população.
Regiões sul e central de Gedo: Dez mil animais foram abatidos pelos voluntários da Sociedade Somali do Crescente Vermelho. Cerca de 120 mil pessoas foram beneficiadas. A aquisição de outros 15 mil animais, beneficiando 90 mil pessoas, está no momento em curso em todos os distritos da região de Gedo.
Região de Bakool: Cinco mil animais foram abatidos; a carne foi distribuída para 30 mil pessoas.
A seca continua em algumas regiões do Estado Regional Somali no sudeste da Etiópia, como também nos países vizinhos Somália e Quênia. Não houve chuva recentemente. O CICV conduz suas atividades no país em cooperação com a Sociedade Etíope do Crescente Vermelho.
Resposta do CICV
Projetos aqüíferos (em curso no momento em Gode, Afder e ao redor de Bare)
Transporte de água para os centros de distribuição e armazenamento (cerca de 16 mil quilômetros já foram cobertos até agora)
Instalação de centros de armazenamento de água em poços na cidade de Bare e às margens do rio Shabelle
Instalação de t anques de distribuição em pontos em torno de Bare
Conserto de bombas d’água e fornecimento de combustível e peças de reposição para irrigação ao longo do rio Shabelle (concluído)
Distribuição de comida (Imi Leste)
Cerca de 24 mil pessoas receberam ajuda alimentar (milho, feijão e óleo)
Distribuição de instrumentos e sementes (Gode, Fik, Imi Leste)
Aproximadamente 7 mil famílias receberam 93 toneladas de sorgo e 14 mil instrumentos agrícolas
Acesso a cuidados médicos (Afder, Gode)
Medicamentos e outros suprimentos médicos fornecidos para clínicas médicas. Mais de 150 mil pessoas foram beneficiadas
Tratamento veterinário (Afder, Gode)
Tratamento de 124 animais contra parasitas e outras doenças
O epicentro da seca continua dentro e em torno do distrito de Mandera. Os distritos vizinhos de Wajir e Garissa, assim como Marsabit e Moyale, na Província Sudeste, estão entre as áreas mais atingidas. A pouca quantidade de chuva que caiu no início de março em várias partes do país não trouxe, infelizmente, alívio significativo para as regiões pastoris mais afetadas; como consequência, o gado continua a morrer num ritmo alarmante.
A Sociedade Queniana da Cruz Vermelha, organização nacional de resposta às tragédias, intensificou suas atividades em favor das vítimas da seca. A resposta emergencial inclui distribuição de comida, transporte de água, consertos de pontos de água e aquisição de gado.
No início de março a Sociedade Nacional havia comprado e abatido mais de 18 mil animais, e havia distribuído quase 1 mil tonelada de comida. A Cruz Vermelha Queniana também estava transportando água em cinco distritos. O CICV apoiou esses esforços da seguinte forma:
Oferecendo trailers e caminhões para a Cruz Vermelha Queniana para o transporte de suprimentos de socorro;
Treinando equipes da Cruz Vermelha Queniana em administração de estoques em depósitos;
Equipando com rádios quatro veículos da Cruz Vermelha Queniana.
Como parte de suas atividades em curso, o CICV lançou um programa de controle de parasitas no norte de Turkana. Cerca de 500 famílias pastoris receberam vouchers para tratar 25 mil cabras e ovelhas. O tratamento, planejado para começar esta semana, tornará os animais mais resistentes às doenças provocadas por parasitas.
Em Orwa (Pokot) e Loyapat (Turkana), sementes (tomates, couve e milho) e instrumentos (enxadas, machete e eixos de roda) foram distribuídos para 500 famílias de pastores e agricultores.
Mais informações:
Nicole Engelbrecht, CICV Nairóbi, tel. + 254 20 2723 963 ou +254 722 51 27 28
Pédram Yazdi, CICV Somália (em Nairóbi) , tel. +254 20 2723 963 ou +254 722 51 81 42
Patrick Mégevand, CICV Addis Abeba, tel. +251 11 551 8366 ou +251 91 148 0921
Marco Jimenez, CICV Genebra, tel. +41 22 730 2271 ou +41 79 217 3217

