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Israel e territórios ocupados: violência causa mais mortes à medida que o bloqueio continua reprimindo Gaza

29-04-2010 Relatório de operações

A restrição de entrada de suprimentos em Gaza e de liberdade de trânsito continua assolando a vida cotidiana dos palestinos. Este é um relatório de operações que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) realizou no primeiro trimestre de 2010 em Israel e nos territórios ocupados.

     
©CICV / J. Chung / il-e-01868 
   
Vilarejo Um-Al-Kheir nos arredores de Hebron, próximo ao assentamento de Karmel. 
               
©CICV / J. Chung / il-e-01938 
   
Um bloqueio na estrada no vilarejo de Beit Hanoun, na Cisjordânia. 
               
©CICV /il-e-01973 
   
Um delegado do CICV visita detidos na Faixa de Gaza para monitorar as condições de detenção. 
               
©CICV / il-e-01974 
   
O CICV distribuiu 1,3 mil mudas de oliveiras, romãs e amêndoas para agricultores cujos campos em Tulkarem, na Cisjordânia, foram destruídos pela Barreira da Cisjordânia. 
               
©CICV 
   
Hospital de Gaza. O CICV apoia o Centro de Pólio e Membros Artificiais, que fornece próteses e órteses a pessoas como este paciente, ferido durante a operação militar israelense do ano passado. 
           

O início de 2010 foi marcado pela violência ocorrida durante as incursões israelenses a Gaza e pelas operações de aplicação da lei na Cisjordânia, que causaram a morte de vários civis. Em Israel, novos ataques indiscriminados com foguetes oriundos de Gaza resultaram na morte de uma pessoa, reavivando o medo entre a população do sul do país.

Em Gaza, o bloqueio imposto há quase três anos continuou impedindo a entrada de equipamentos médicos essenciais na Faixa, pondo em risco o tratamento imediato e de longo prazo de milhares de pacientes. Muitos remédios e material médico descartável não estão disponíveis devido à falta de cooperação entre os ministérios de saúde palestinos em Ramallah e em Gaza. Além disso, as reservas de combustível industrial continuaram secando, fazendo com que haja eletricidade em apenas 60% do tempo. Os cortes de energia eram imprevisíveis e frequentes e punham em risco o funcionamento dos hospitais. Todos esses fatores contribuíram para um preocupante padrão decrescente de serviços de atendimento médico.

" São os doentes e feridos que estão pagando o preço das restrições impostas à entrada de peças de reposição de aparelhos médicos. São eles também que sofrem com a cooperação incompleta entre os ministérios da saúde de Ramallah e de Gaza " , disse o chefe da delegação do CICV em Israel e nos territórios ocupados, Pierre Wettach. " Pedimos a todas as partes envolvidas que assumam suas responsabilidades e ajam rapidamente para facilitar a transferência de remédios, materiais descartáveis e peças de reposição necessários para os tratamentos médicos. "

Devido à escassez de autorizações para construir, muitas famílias da Cisjordânia que vivem em áreas sob o controle israelense estão construindo casas sem autorização, apesar do risco de verem seus lares destruídos. Durante os primeiros três meses de 2010, as autoridades israelenses demoliram 14 casas no leste de Jerusalém e na Cisjordânia, a maioria no Vale do Jordão, onde cerca de 200 pessoas também receberam ordens de demolição ou de " interrupção de construção " .

O medo da violência dos colonos continuou mantendo os agricultores palestinos longe de suas terras, em particular, nas áreas próximas aos assentamentos israelenses. O CICV registrou vários casos de destruição de propriedades palestinas, sobretudo de oliveiras.

Durante décadas, as restrições relacionadas com os assentamentos israelenses na Cisjordânia fizeram com que palestinos perdessem suas terras e suas fontes de renda. Os assentamentos são ilegais, segundo o Direito Internacional Humanitário (DIH). Apesar das recentes melhoras na situação econômica, estima-se que 50% da população da Cisjordânia estava vivendo na pobreza no início de 2010.

A duradoura impossibilidade de construir, desenvolver e cultivar suas terras continua acarretando um grave impacto sobre as vidas de muitos palestinos na Cisjordânia ocupada.

 
Visita a detentos e restabelecimento de laços familiares 
 

O CICV realizou quase 90 visitas a cerca de 1,6 mil pessoas retidas pelas autoridades em Israel entre janeiro e março. Os delegados também visitaram cerca de 1,3 mil pessoas retidas em quase 50 centros de detenção palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

O objetivo das visitas é monitorar as condições de detenção e o tratamento que os detidos recebem. O CICV compartilha com r egularidade os resultados com as autoridades pertinentes e faz recomendações ou observações confidenciais, se necessário.

Nos presídios israelenses, o CICV prestou atenção especial às necessidades de 50 mulheres e 400 menores, mas também às de 800 cidadãos de Gaza que tiveram as visitas familiares negadas desde junho de 2007. O CICV deu continuidade ao programa que permite que 35,8 mil moradores da Cisjordânia visitem parentes retidos em presídios israelenses.

O CICV também visitou 2,5 mil estrangeiros, em sua maioria da África Subsaariana, retidos por Israel em campos para migrantes no deserto de Negev. " O número de migrantes registrados pela organização nos presídios israelenses aumentou em 60% no último ano. Muitos enfrentam longos períodos de detenção porque não possuem os documentos exigidos para provar suas nacionalidades " , explicou o delegado do CICV Olivier Chow. " Fazemos o possível para ajudá-los da maneira que podemos, sobretudo para obter os documentos de que eles necessitam para voltar a suas casas, se assim o desejarem " , acrescentou.

Mais uma vez, o CICV apresentou um pedido ao mais alto nível do Hamas para que permita a troca de mensagens Cruz Vermelha entre o soldado israelense capturado Gilad Shalit e sua família, que não tem contato direto com ele desde que foi capturado, em junho de 2006. Tanto esse pedido como pedidos de visita a Shalit foram recusados repetidas vezes. O Comitê se reuniu com os pais de Shalit, Noam e Aviva Shalit, para lhes informar sobre os esforços da organização e assegurar-lhes que o CICV continua pressionando para obter acesso a seu filho e que o contato familiar seja permitido.

 
Apoio aos serviços de saúde precários de Gaza 
 

Entre janeiro e março, o CICV entregou 55 toneladas de remédios e material descartável aos hospitais d o Ministério de Saúde da Faixa de Gaza, que seriam suficientes para prestar tratamento cirúrgico de emergência a cerca de 10,3 mil pacientes.

O estado precário do equipamento médico em Gaza dificulta muito a prestação de assistência adequada. Devido ao bloqueio imposto à Faixa, as máquinas ou ferramentas quebradas e avariadas raramente podem ser substituídas ou consertadas.

No entanto, no início deste ano, a organização conseguiu importar peças de reposição necessárias para consertar 10 das 20 máquinas de diálise em Gaza que estavam funcionando mal. Cerca de 400 pacientes sofrem de falência renal e necessitam tratamentos regulares de diálise.

Ao mesmo tempo, a falta de coordenação entre os ministérios de saúde em Ramallah e em Gaza, somada aos longos e complexos procedimentos israelenses para a transferência de mercadorias para Gaza, limitaram seriamente o fornecimento de remédios e descartáveis, como bolsas de colostomia. Os estoques de 110 remédios e suprimentos essenciais estão esgotados e não são mais encontrados nos hospitais em Gaza. Em suas entregas regulares de suprimentos a hospitais, o Comitê tentou atender as necessidades mais urgentes, como por exemplo desinfetantes de pele e corante fluorescente usado em exames oftalmológicos.

O CICV lançou um novo programa de apoio organizacional e treinamento profissional para serviços de emergência no Hospital Shifa, o principal centro de referência médica em Gaza.

Além disso, o Centro de Pólio e Membro Artificial apoiado pelo CICV aumentou a frequência de atendimento prestado duas vezes por semana aos pacientes que requerem próteses e órteses. Desse modo, permite que os especialistas melhorem a qualidade das consultas individuais. Cerca de 670 pacientes foram tratados no Centro no primeiro trimestre deste ano.

 
Ajuda a famílias carentes a superarem as necessidades financeiras 
 

O CICV ajudou as famílias mais necessitadas na Cisjordânia a superarem suas dificuldades financeiras por meio de vários projetos de geração de renda e programas de " dinheiro por trabalho " . Em particular, a organização ajudou agricultores a obterem acesso a seus campos além da fronteira da Cisjordânia e/ou próximos a assentamentos para que possam trabalhar em suas terras.

O CICV distribuiu mais de 30 mil mudas de oliveiras e plantas frutíferas para agricultores cujas hortas haviam sido destruídas pelo incêndio ou negligenciadas por muitos anos, durante os quais eles não podiam ter nenhum acesso às áreas ou estavam limitados à época de colheita.

Em Gaza, o Comitê continuou apoiando os mais necessitados entre os desempregados, oferecendo-lhes dinheiro em troca de trabalho como a reconstrução de estradas e colocação de tubulação. Sempre que possível, a ajuda oferecida pelo CICV na Faixa de Gaza visa a compensar a falta de certos suprimentos devido ao bloqueio. Por exemplo, a organização apoia três centros de compostagem com o objetivo de contrabalancear a falta de fertilizantes.

O Comitê empregou cidadãos de Gaza para ajudar em uma pesquisa sobre crianças com dificuldades de fala, que podem ser resultantes de uma mistura de estresse e ansiedade relacionados à exposição ao conflito armado. O CICV treinou mão-de-obra não qualificada para ajudar os especialistas a identificarem as crianças que sofrem com tais dificuldades nas escolas de Gaza. As crianças foram depois encaminhadas para um centro especializado para uma avaliação detalhada e sessões de fonoaudiologia, ambas pagas pelos CICV. Na primeira fase, quase 90 mil alunos foram examinados, dos quais 90% apresentaram distúrbios da fala.

No total, quase 19 mil pessoas foram beneficiadas pelos 15 projetos do CICV na Cisjordânia e na Faixa d e Gaza durante os três primeiros meses de 2010.

Em março, a organização começou o transporte de mais de 8 mil toneladas de maçãs através do ponto de passagem de Kuneitra entre o Golã ocupado e a Síria propriamente dita. O CICV age como intermediário neutro a pedido dos agricultores do Golã ocupado e com o consentimento das autoridades sírias e israelenses. Os rendimentos obtidos com essa atividade, que representa cerca de um terço do lucro anual da colheita, são uma importante fonte de renda para os agricultores.

 
Fornecer água e melhorar o saneamento para dezenas de milhares de pessoas 
 

O CICV continuou ajudando as comunidades na Cisjordânia a melhorarem seu acesso a água potável, permitindo desta maneira que a população evitasse recorrer a alternativas inadequadas e arriscadas, como usar a água da chuva ou comprar caminhões-pipa a preços altos e de origens não controladas. No total, quase 130 mil palestinos serão beneficiados com essas ações.

A organização realizou uma reforma nos sistemas de abastecimento de água de Dar Salah, Al Hul e Anabta. Essas comunidades têm uma população total de 61 mil habitantes. Um sistema de abastecimento de água abrangente para 35 mil habitantes de 11 vilarejos ao sul de Nablus também foi terminado. Por fim, o CICV começou a reformar a rede de transmissão de água que conecta a área de Dahiryah e seus 32,5 mil moradores com Simiya, ao sul de Hebron.

Em Gaza, o Comitê continuou sua obra de construção da usina de tratamento de resíduos para Rafah. Esta usina é importante para reduzir a poluição do aquífero e a degradação da terra e do ecossistema costeiro.

 
Parceria com o Crescente Vermelho Palestino e o Magen David Adom 
 

Com o apoio do CICV, o Crescente Vermelho Palestino na Cisjordânia e no leste de Jerusalém realizou um treinamento de manejo de desastre para mais de 100 voluntários e equipe para aumentar a capacidade dessa Sociedade Nacional de responder a emergências. Em Gaza, o Crescente Vermelho Palestino treinou funcionários em administração de hospital de campanha durante emergências.

Os serviços médicos de emergência do Crescente Vermelho Palestino continuaram prestando atendimento pré-hospitalar de emergência essencial em toda Cisjordânia e Faixa de Gaza, com apoio técnico e financeiro do CICV e da Cruz Vermelha Norueguesa, que realizaram em conjunto visitas ao lugar durante o primeiro trimestre deste ano. As estações de serviços médicos de emergência em Jabalia e na cidade de Gaza, que foram destruídas durante o conflito com Israel em 2009, e a estação em Rafah, cuja construção fora suspensa devido à falta de material de construção, foram submetidas a importantes transformações sob a supervisão do Crescente Vermelho Palestino com o apoio financeiro do Comitê.

Com o apoio do CICV, da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e da Cruz Vermelha Alemã, o Magen David Adom (a Sociedade Nacional Israelense) realizou seu primeiro curso voltado para preparar sua equipe e seus voluntários para o trabalho em operações internacionais de socorro. Quatro participantes estiveram presentes na operação de socorro organizada para ajudar depois do terremoto que devastou o Haiti – a primeira resposta de emergência internacional do Magen David Adom organizada em conjunto com o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

" O Magen David Adom foi um importante parceiro das equipes médicas da Cruz Vermelha da Noruega, do Canadá e da Alemanha no Haiti " , disse a delegada de cooperação do CICV em Tel Aviv, Sabira Baratbaeva. " Sua participação no esforço internacional de socorro foi um grande passo para a integração do Magen David Adom no Movimento. "

 
Promoção do cumprimento do Direito Internacional Humanitário  
 

Lembrar as partes em conflito de sua obrigação de proteger os civis é uma parte fundamental do trabalho do CICV. Como parte de seus esforços para promover o cumprimento do Direito Internacional Humanitário (DIH) e outros padrões internacionais aplicáveis em tempos de violência e conflito armado, o Comitê mantém um diálogo com as autoridades, forças armadas, facções e membros influentes da sociedade civil de todos as partes.

Entre janeiro e março, cerca de 2,2 mil efetivos de segurança, estudantes, profissionais de saúde, líderes religiosos e representantes de autoridades, mídia e organizações não governamentais (ONGs) tanto palestinos e como israelenses participaram de dezenas de workshops de treinamento e de encontros informativos organizados pelo CICV.