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Gaza: um ano depois da guerra, ainda não há perspectivas para uma vida decente

23-12-2009 Relatório de operações

Quase um ano depois da devastadora operação militar na Faixa de Gaza, que durou três semanas, em 27 de dezembro de 2008, mais de 1.5 milhão de pessoas nesse território ainda lutam para reconstruir suas vidas e sua economia.

 

 
           
 
   
 
         

O fechamento restritivo imposto sobre Gaza tem um impacto grave sobre a vida cotidiana da maioria das pessoas e tem frustrado os esforços de reconstrução. As vidas de pescadores e agricultores foram destruídas. O desemprego e a pobreza estão desenfreados. A disponibilidade de assistência médica é inadequada e os serviços de água e saneamento estão debilitados.

" Praticamente, não houve melhoras na situação desde o fim da guerra em Gaza, sobretudo devido ao forte fechamento, o que impede a reconstrução " , disse Pierre Wettach, chefe da delegação do CICV em Israel e territórios ocupados. " Muitos moradores de Gaza se desesperam porque não veem perspectiva de uma vida decente em um futuro próximo " .

Não há sinais de que os 4.5 bilhões de dólares prometidos por países doadores em março de 2009 para ajudar a economia palestina e para reconstruir Gaza tenham sido usados. Em junho, o CICV mais uma vez pediu aos Estados, às autoridades políticas e aos grupos armados pertinentes que façam o que seja necessário para reabrir a Faixa de Gaza e resguardar a vida e a dignidade de sua população civil, mas até o momento, nenhuma ação significativa foi tomada. A falta de atenção para com o s repetidos apelos dos CICV pelo fim do isolamento de Gaza refletem a falta de vontade política de permitir a reconstrução do território.

O CICV apela de novo para o levantamento imediato das restrições de trânsito de pessoas e bens. A recuperação da economia sustentável só pode ser alcançada se as partes em conflito derem passos ousados em direção ao processo de paz.

De acordo com o Direito Internacional Humanitário, Israel tem a obrigação de manter as condições que permitam que a população siga com sua vida da maneira mais normal possível. Ao mesmo tempo em que o CICV reconhece por completo o direito de Israel de tratar suas legítimas preocupações de segurança, as mesmas devem ser equilibradas em relação ao direito dos palestinos de levar uma vida normal e digna.

Os palestinos na Faixa de Gaza ainda pagam um preço alto pelas constantes hostilidades entre Israel e facções palestinas e pelos confrontos entre palestinos.

  Meios de subsistência destruídos  

Hoje, devido ao fechamento, a reconstrução em grande escala continua impossível. Muitas famílias cujas casas foram total ou parcialmente destruídas ainda vivem em apartamentos alugados ou com parentes. Algumas se mudaram de volta a suas casas parcialmente destruídas, que eles vêm tentando consertar para se proteger do frio e da chuva. Um pequeno número de família ainda vive em barracas.

Os materiais de construção ainda não estão disponíveis ou são muito caros. Os que chegam a Gaza em sua maioria são contrabandeados ou vendidos a preços altos. Embora o preço do cimento tenha despencado nos últimos meses, ainda assim é inacessível para muitas pessoas. O aço e o vidro simplesmente não estão disponíveis.

" Vinte e seis casas no bairro, incluindo minha própria casa, foram completamente destruídas n o bombardeio do ano passado " , disse Said Abu Sharkh, um palestino que mora na Cidade de Gaza. " Seria um eufemismo dizer que estava chocado quando descobri que nossa casa e todas nossas roupas e nossos móveis haviam sido destruídos. Minha esposa e eu somos pobres e temos sete filhos para cuidar. Só temos condições de reconstruir um cômodo; não temos dinheiro suficiente nem mesmo para um telhado adequado ou para os vidros das janelas. Meus filhos me perguntam porque a água passa pelo telhado quando chove. A destruição de nossas casas foi um golpe muito duro para eles. Costumava ganhar a vida consertando aparelhos eletrônicos, mas minha pequena oficina também foi destruída. Agora sobrevivemos da ajuda das agências de socorro. Esse é o verdadeiro sofrimento: não ter um trabalha ou uma casa adequada " .

A maioria das famílias em Gaza foi afetada pelo desemprego ou pela pobreza. Os alimentos estão disponíveis nas lojas e nos mercados, mas muitas famílias não podem pagar por uma dieta balanceada. As padarias com frequência têm de fechar por falta de combustível.

Os pescadores estão entre os mais afetados pelas restrições de trânsito. Depois da decisão de Israel no último inverno de reduzir a área aberta à pescaria de seis para três milhas náuticas a partir da costa de Gaza, sua pesca durante os primeiros nove meses de 2009 foi 63% inferior ao mesmo período de 2008. Os maiores peixes que formavam quase 70% da pesca antes de ser imposta a redução da zona de pescaria são encontrados, em geral, depois do limite das três milhas náuticas. De acordo com o sindicato de pescadores de Gaza, o salário mensal médio de seus membros despencou para menos da metade do que era antes da redução da zona de pesca.

Os pescadores correm um grande risco de serem baleados pela marinha israelense. Várias vítimas foram registradas desde o início do ano. Israel confiscou cerca de vinte barcos, bem como máquinas e equipamentos de pesca em 2009.

A segurança também é uma questão que gera muita preocupação para os agricultores cujas terras estão próximas à cerca que separa Gaza de Israel. Alguns agricultores podem trabalhar livremente dentro de 350 metros a partir da cerca, enquanto outros correm o risco de serem baleados se se aproximam 1.200 metros. Em algumas áreas, como no leste da cidade de Jabalia, eles não podem nem chegar a seus campos. Como os fazendeiros continuam sem permissão para exportar seus produtos por Israel, a colheita é vendida localmente, o que gera pouca renda. Enquanto os pontos de passagem para Israel continuarem fechados, a agricultura provavelmente sofrerá um declínio no futuro. Para reduzir os custos, muitos agricultores agora contam com os próprios familiares para trabalharem nos campos, dessa maneira deixando outras pessoas desempregadas.

  Atendimento médico inadequado  

Com frequência, os centros médicos de Gaza têm de trabalhar em condições abaixo do padrão. Não só enfrentam problemas com o abastecimento de água e o tratamento de esgoto, como também estão sujeitos a cortes e flutuações no fornecimento de energia podem danificar os equipamentos, que nem sempre podem ser consertados quando deixam de funcionar.

Os estoques de remédios básicos e suprimentos médicos ainda são insuficientes ou inexistentes. No final de novembro de 2009, cerca de 75 remédios de uma lista de 460 considerados essenciais – por exemplo, antibióticos para tratar infecções pulmonares – estavam em falta. Mais de cem tipos de descartáveis dos 780 que deveriam estar disponíveis também estavam em falta, obrigando a equipe médica da maternidade a reutilizar artigos descartáveis como tubos de ventilação, o que pode levar a infecções que ameaçam a vida dos pacientes.

" Se uma pessoa mora em Gaza e está com um braço quebrado, isso pode ser resolvido. Mas se ela sofre de insuficiência renal, por exemplo, sempre existe o risco de perder sua diálise regular porque as drogas e outros suprimentos essenciais estão em falta " , disse Palina Asa Asgeirsdottir, gerente de projeto do hospital do CICV que trabalha em Gaza. " Ou as máquinas podem estar quebradas ou devem esperar que sejam consertadas porque é muito difícil conseguir peças de reposição em Gaza. Perder um tratamento de diálise pode ser devastador para o paciente " .

" Se uma pessoa sofre de câncer não há garantias de que receberá o tratamento urgente de que necessita " , acrescentou Asgeirsdottir. " Às vezes, os hospitais não têm todas as drogas necessárias para a quimioterapia. Para a radioterapia a pessoa tem de sair de Gaza e ir para um hospital especializado em Israel ou no leste de Jerusalém. Conseguir a autorização para sair cada vez que a pessoa necessita um tratamento é um processo longo e complicado que envolve as autoridades do Hamas e as autoridades de saúde israelenses e palestinas na Cisjordânia. É duro ter de passar por esses longos procedimentos e viajar para hospitais muito longe quando uma pessoa está gravemente doente " .

Essa situação se agrava mais tarde com uma paralisação na cooperação entre as autoridades palestinas em Ramallah e Gaza.

A importação de peças de reposição para equipamentos médicos através de Israel está sujeita a demoras tão longas que é preciso encontrar outras maneiras de conseguir consertar o equipamento essencial. Por exemplo, o CICV enviou partes defeituosas de aparelhos de diálises para serem consertadas na Europa, um processo que provavelmente levará pelo menos um ano para ser completado.

Foram necessários oitos meses para trazer peças de reposição para as ambulâncias. Para o ano passado, o CICV tentou, sem sucesso, importar um equipamento de radio para as ambulâncias que permitiriam que elas se comunicassem umas com as out ras e com as salas de emergências do hospital. O serviço de ambulâncias em Gaza não pode funcionar de maneira adequada sem esse tipo de equipamento de rádio.

Devido ao fechamento é muito difícil oferecer treinamento ao pessoal médico. Poucas pessoas da equipe médica puderam sair de Gaza para esse propósito e pouco especialistas capazes de oferecer tratamento tiveram permissão para entrar no país. Embora tenha sido possível instalar conexões de vídeo em alguns hospitais com as instituições de treinamento em países como o Egito, a necessidade de treinamento especializado não é suprida.

  A infraestrutura de água e saneamento em estado deplorável  

A infraestrutura vital em Gaza está em ruínas. A população vive sob a constante ameaça de um colapso nos sistemas de água, saneamento e eletricidade.

O fechamento está paralisando qualquer nova construção. Com poucas exceções, como os tubos de água importados pelo setor privado, nenhum material de construção recebeu autorização de passar pelos pontos de passagem israelenses em 2009.

" Ainda não temos permissão de trazer os materiais mais necessários para a manutenção da infraestrutura de água e saneamento " , disse Javier Cordoba, coordenador de água e saneamento do CICV. " Para podermos fazer pequenos consertos temos que lutar para conseguir alternativas: ou são materiais que podemos comprar localmente ou peças recicladas. É muito triste ver que não houve mudanças para melhor no terreno " .

O principal aquífero em Gaza está sob uma grave ameaça de sobre-exploração, o que aumenta o nível de salinidade da água. Além disso, a falta de saneamento adequado e certas práticas agrícolas estão poluindo o aquífero, fazendo com que a água contenha altos níveis de nitrato e sal. Os que podem compram água potável de companhias que fornec em água dessalinizada.

Medidas urgentes, como a construção de usinas de dessalinização e melhora das redes de esgoto, precisam ser tomadas para tratar esse problema. No entanto, isso requer a importação de grandes quantidades de material de construção.

As melhoras planejadas para as usinas de tratamento de água em Rafah e Khan Yunis devem ajudar a aliviar um pouco da tensão. Em ambas as usinas, em breve será possível tratar as águas residuais para filtrar para o aquífero novas bacias de infiltração em vez de permitir que a água não tratada seja despejada diretamente no mar.

Apesar dos apagões diários que podem durar até oito horas, o fornecimento de eletricidade está melhor do que no início do ano.

  Atividades do CICV em Gaza em 2009  

Em parceria com o Crescente Vermelho Palestino, o CICV forneceu utensílios domésticos e artigos de higiene, além de lençóis plásticos para consertar as janelas estilhaçadas, para cerca de 32 mil pessoas cujas casas foram total ou parcial destruídas durante o conflito. Entre janeiro e outubro de 2009, o CICV assistiu mais de 2.300 desempregados com 15 mil dependentes ao cadastrá-los em atividades do programas " dinheiro por trabalho " e em vários outros programas que envolviam a recuperação de terra, restauração de estufas e melhoria nas estradas.

Apesar do fechamento, o CICV pôde realizar a construção de usinas de tratamento de água em Rafah e Khan Yunis – quase sempre usando materiais pouco comuns, como partes de concreto do antigo muro na fronteira de Rafah que estava abandonado depois de sua demolição parcial. As usinas melhoraram as condições de saneamento para cerca de 320 mil pessoas. O CICV também renovou as redes de esgoto redes de galerias de águas pluviais nas duas áreas, o que deve evitar ou diminuir as inundações nos bairros re sidenciais durante o inverno.

O CICV forneceu cerca de 230 toneladas de remédios e descartáveis para oito hospitais do governo em Gaza. A organização também continuou apoiando o Centro de Membros Artificiais e Pólio na Cidade de Gaza, onde cerca de 1500 pacientes, incluindo quase 700 amputados, receberam tratamento. Cerca de 75 amputados do conflito ocorrido no final do ano passado, alguns dos quais receberam membros artificiais, fazem sessões de reabilitação no centro. Será necessário algum tempo, no entanto, antes de que todos os amputados possam receber membros artificiais.

O CICV e o Crescente Vermelho Palestino estão trabalhando juntos para melhorar a prontidão de emergência. Em particular, 120 profissionais médicos participaram de três oficinas sobre medidas práticas para chegar às vítimas de conflito com mais segurança.

O CICV tem uma equipe de 100 pessoas baseadas permanentemente em Gaza, das quais 18 são funcionários internacionais.