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Gaza: a luta para juntar os cacos

26-02-2009 Relatório de operações

Mais de um mês depois do fim da guerra, as pessoas na Faixa de Gata ainda lutam para reconstruir suas vidas. Dezenas de milhares de pessoas tiveram suas casas parcial ou totalmente destruídas, enquanto outras continuam sem acesso à água corrente.

     

©ICRC /T. Domaniczky /il-e-01656 
   
Cidade de Gaza. Moradores do bairro de Shijayia tiram os escombros de um prédio danificado.  
         

" O que mais podemos fazer além de esperar que alguém venha nos ajudar? " , pergunta uma mulher de Jabaliya do Leste. Em sua família de doze pessoas, todos os homens estão desempregados. A casa foi reduzida a escombros e todos as cabras que tinha, que gerariam um pouco de renda, foram mortas durante os ataques aéreos. " Não temos escolha, temos que esperar. Tudo que temos agora são as roupas que vestimos e colchões e cobertores que recebemos. Alguém vai nos ajudar a sair dessa situação " , disse.

De acordo com os resultados das avaliações que o CICV e o Crescente Vermelho realizaram nas áreas mais atingidas da Faixa de Gaza, o conflito destruiu mais de 2.800 casas por completo e quase 1.900 parcialmente, deixando dezenas de milhares de desabrigados. Até o momento, o CICV distribuiu lençóis plásticos para cobrir os vidros quebrados das janelas e os furos nas paredes, utensílios domésticos, colchões e cobertores para 72.500 pessoas.

     

 
   
    "Acordei muito cedo de manhã, preparei minha massa e acordei meu filho Hassan, que tem que recolher madeira e papel nas ruas para o fogo para assarmos pão no forno de barro de meu bairro. Não há eletricidade nem gás de cozinha para prepararmos nosso pão e nossa comida. Mas o que é ainda pior é que perdemos nossa casa. Nossa casa está totalmente destruída, assim como a pequena loja que nos dava a renda para viver com um pouco de dignidade".      
       
©Reuters 
   
    Souad Abd Rabou, leste de Jabaliya.      
         

A assistência emergencial para as pessoas que sofreram as maiores perdas durante o conflito não será suficiente. Para ajudar os habitantes de Gaza a porem suas vida de volta nos trilhos, será extremamente necessário importar bens para reconstrução, bem como maquinário e peças de reposição. Ainda hoje os materiais de construção de Israel não foram autorizados para entrar em Gaza.

  Vida cotidiana: uma luta em meio à crescente pobreza  

Fora dos bairros mais atingidos de Gaza, quase se pode ter a sensação de que as coisas voltaram ao normal. Mas mesmo nas áreas não atingidas pelos bombardeios, muitas famílias lutam para sobreviver.

Os índic es de pobreza estavam atingindo 70% antes das recentes hostilidades, fazendo com que muitas famílias tivessem que lutar para conseguir manter uma dieta saudável. Por causa do conflito, mesmo os ganha-pães perderam seus empregos e a fonte de renda. Muitos trabalhadores de pequenas fábricas foram demitidos, assim como muitos trabalhadores rurais, por exemplo, os que eram empregados de granjas que estão agora destruídas.

Devido às restrições israelenses impostas sobre Gaza, o preço dos bens cotidianos continua alto, especialmente para os mais pobres. Há falta de produtos também. Um botijão de gás de cozinha custa 100-150 shekels (cerca de US$24-US$36) no mercado negro, uma quantia da qual muitas famílias não dispõem. O preço no mercado legal é menor, mas podem levar meses até que o gás esteja disponível. As famílias pobres tentam se virar com lenha que eles recolhem, mas até isso está escasso na Faixa de Gaza.

     

 
   
    "Nossa associação estima que os danos ao setor industrial estejam acima dos 250 milhões de dólares, já que mais de 690 indústrias foram parcial ou totalmente destruídas. Por exemplo, a fábrica de cimento foi totalmente destruída apesar de estar trabalhando em parceria com a fábrica de cimento israelense Nesher. Somente se as passagens forem completamente abertas poderemos começar de novo e restabelecer nossa capacidade de produção. Nenhum material de assistência ou de socorro será suficiente para ajudar nosso povo. Matéria-prima, máquinas e ferramentas são o que necessitamos para substituir o que foi destruído e para trazer vida de volta a Gaza".      
       
©ICRC 
   
    Ali Al Hayek, delegado-chefe da Associação de Negociantes de Gaza      
         

Itens como fraldas, sabão para lavar roupa, iogurte e queijo se tornaram impossíveis de encontrar. Os postos de gasolina começaram a fechar de novo devido à falta de combustível. A carne se tornou um luxo ainda maior, com o preço do frango que dobrou para 17 shekels (cerca de US$ 4) por quilo. O peixe é escasso e caro.

  Um duro golpe na agricultura  

A agricultura é a corda salva-vidas de Gaza, já que as famílias de agricultores constituem cerca de 27 porcento da população. Aproximadamente 43 porcento das terras cultiváveis estão na zona neutra imposta por Israel que se estende por um quilômetro dentro do território de Gaza a partir de uma cerca que separa a Faixa de Gaza de Israel. Nos últimos 18 meses, as Forças de Defesa de Israel realizaram operações militares regulares na zona neutra, resultando na destruição dos campos e das colheitas. Os agricultores que trabalhassem em suas terras nessa zona corriam o risco de serem presos ou de levaram tiros.

Desde o fechamento imposto por Israel em junho de 2007, seguido de restrições sobre as importações, como morangos, flores e tomates-cereja, a produção agrícola continuou em declínio. Em geral, os agricultores viram suas rendas sendo reduzidas para a metade.

O recente combate foi um golpe extra para os agricultores, já que as árvores frutíferas, os bosques de oliva e os grandes faixas de terras cultivadas foram arruinados. Muitos sistemas de irrigação, poços de água, armazéns e estufas foram danificados ou destruídos. Essas perdas empobreceram ainda mais a população.

  Uma crise nos cuidados médicos  

     

 
   
    No dia 15 de janeiro, a FDI (Força de Defesa Israelense) lançou vários bombardeios na área próxima a minha casa, o que fez com que as casas do bairro pegassem fogo. Fui ao quarto onde as crianças estavam dormindo, os acordei e os trouxe para outro quarto. Depois voltei para pegar mais cobertores para mantê-los aquecidos. Quando entrava no quarto, uma bomba antitanque explodiu, cortando uma perna minha e causando graves ferimentos na outra. Um marido ligou para a ambulância e para a Cruz Vermelha, mas ninguém conseguia chegar até onde estávamos. Ele teve que arriscar a própria vida para me levar ao hospital no nosso carro particular. Agora estou esperando as outras operações que vão preparar meu coto para receber um membro artificial nos próximos meses. Nunca vou esquecer o que aconteceu comigo. Essa guerra estará comigo pelo resto da minha vida".      
       
©ICRC/T. Domaniczky /il-e-01713 
   
    Suhair Zemo, 47 anos, Tal Al-Hawa, Gaza.      
         

Durante a última guerra, os estabelecimentos médicos e de saúde foram levados ao limite e só puderam suportar graças ao socorro emergencial. Muitos sofreram ferimentos graves, às vezes causados por ataques diretos durante a ofensiva israelense. Alguns medicamentos, por exemplo, para o tratamento de câncer e certos tipos de filmes para raios-X ainda estão em falta. O estoque de descartáveis também está diminuindo. Equipamentos vitais quase sempre estão ultrapassados e as peças de reposição levam meses para chegar à Faixa de Gaza, isso quando têm permissão de entrar. A energia elétrica fornecida através de redes continua instável e os geradores de reserva com frequência não têm a manutenção adequada. Isso teve um impacto direto e duradouro na saúde da população.

A transferência de pacientes que necessitam cuidados médicos especializados para estabelecimentos fora de Gaza ainda é difícil. Nenhum pacient e foi transferido para o Egito desde o fechamento da passagem de Rafah no dia 5 de fevereiro. Apenas pouco mais de 100 pacientes tiveram a permissão de sair pela passagem de Erez para Israel para tratamento fora da Faixa de Gaza nas últimas semanas. Isso representa menos do que a metade do número médio de transferências antes do dia 27 de dezembro.

Desde meados de janeiro, aproximadamente 100 novos amputados foram cadastrados no Centro de Pólio e Membros Artificiais mantido pelo CICV na Cidade de Gaza e dez pessoas começaram tratamento. O CICV apóia o Centro de Pólio e Membros Artificiais na Cidade de Gaza fornecendo material e conhecimento especializado e melhorando suas instalações. Também entrega regularmente material médico e equipamentos nos hospitais em Gaza. Instalou sistemas de esterilização elétricos nos Hospitais Beit Hanun e Kamal Edwan, no norte de Gaza, e providenciou máquinas de lavar e outros equipamentos de lavar roupas para os Hospitais Nasser e Tal Al Sultan, no sul.

  Acesso à água continua um desafio  

     

    ©ICRC /T. Domaniczky /il-e-01730      
   
Rafah.     Rafah. Construção de um poço no Hospital Tal Al Sultan.
    Fazer o download do mapa dos projetos de água e saneamento em Gaza, 2008-2009 - formato ZIP 
               

A infra-estrutura de água e saneamento continua em perigo já que o fechamento israelense em Gaza ainda torna quase impossível importar materiais básicos como tubos e peças de reposição. Milhares de pessoas ainda não têm acesso à água corrente e dependem de caminhões-pipa em suas casas.

Em Jabaliya e em Beit Hanun, no norte da Faixa, cerca de 200 mil habitantes têm acesso limitado à água potável já que muitos poços foram destruídos durante as hostilidades. Mesmo se o material necessário estivesse disponível, a restauração do fornecimento de água a níveis aceitáveis levaria muitos meses.

Alguns bairros da Faixa de Gaza continuam sem eletricidade devido à falta de novos transformadores. O equipamento já foi comprado, mas é necessária a permissão das autoridades israelenses para trazê-lo a Gaza. A maioria dos hospitais na Faixa de Gaza continua dependendo de geradores durante os cortes de energia.

Depois de um mês de consertos emergenciais, a infra-estrutura essencial está agora funcionando no mesmo nível que antes de o conflito irromper em dezembro passado. Isso não é suficiente. Os materiais de construção e as peças de reposição têm que ser importados com urgência para seguirem os consertos e a reconstrução para poder evitar interrupção dos serviços, assegurar que a manutenção mínima seja realizada e diminuir a contínua deterioração da infra-estrutura.

O CICV emprega 85 pessoas em Gaza, incluindo 20 estrangeiros. A organização tem se mantido presente aí desde 1967.