Página inicial
  English
  Arabic
  Russian
  Chinese
Ajude as vítimas da guerra: faça hoje uma doação ao CICV!
  NO ENGLISH TITLE
3-03-2008  Reportagem  
Trago a minha bebe apenas para que tenha ao menos direito à uma campa, se não à vida

NB: Todos nomes de pessoas citadas nesta história, pelo imperativo das circunstâncias, são fictícios, excepto os lugares.


A história decorre na cidade capital da província do Bié, Kuito, 709 km a sudeste de Luanda, conhecida como cidade mártir devido os acontecimentos da guerra após as primeiras eleições em Angola (1992) e que segundo estatísticas centenas de milhares de pessoas terão perdido a vida.

Quintino Mavinga era soldado do exército governamental e para além de ter a cidade mártir como seu posto onde cumpria o serviço militar vivia ali feliz, com a sua família longe de imaginar o futuro que os aguardava. Nos primeiros meses de 1993, altura em que os confrontos militares pós-eleitorais já haviam tido lugar na capital do país e em tantas outras cidades, o Kuito tornou-se o palco do conflito mais sangrento desta etapa da guerra em Angola.

A esposa de Quintino, D. Maria, encontrava-se concebida mesmo antes do reacender da guerra o que a levou a dar luz em pleno fogo cruzado e ao som dos canhões das duas contendas militares Governo e UNITA. De princípio, o acontecimento embora menos confortável e seguro para mãe e a bebé dadas as circunstâncias, foi mesmo assim saudado com alegria pelo Quintino que o comunicou ao irmão que se encontrava na cidade de Benguela, 692 km a sul de Luanda.

Os bombardeamentos terrestres e de aviação impedem os civis de saírem de seus esconderijos em busca de alimentos e água, mas como não se podia conter por tanto tempo as exigências do estômago, D. Maria arrisca-se para tentar a sorte em busca de alguns grãos de milho e tubérculos em zonas fora do perímetro de fogo, mas ela não volta e Quintino fica saber que ela havia perecido em consequência de uma bala perdida, deixando-o viúvo e uma bebe de 4 meses para cuidar.

Numa noite, após ter avaliado as hipóteses dos dois sobreviverem, com o facto de que o dever militar chamava, concluiu que o melhor era dar destino a bebe e não aquele. De manhã cedo, entre ruelas sitiadas pelos tiros, Quintino consegue chegar ao orfanato, gerido pelas irmãs católicas do Santíssimo Salvador na ciade, transpôs o muro onde é interpelada pela Dona M. Chilala trabalhadora do centro, e esta fica assustada pela figura que carregava uma espingarda e uma bebe ao colo. << Por favor dona, não tem por que se alarmar não vim pilhar mas fazer entrega desta bebe que passou a noite comigo na trincheira cuja mãe faleceu>>, suplicou abatido.

Mas D. Chilala disse o centro não dispor de alimentos tão pouco de leite que a bebe naquela idade carecia ao que Quintino replicou; << trago a bebe apenas para que tenha direito à uma campa, se não a vida>>. Esta comovida recebeu a criança que os dois decidiram a pressas dar-lhe o nome da avó paterna antes do pai sair, ela ia chamar-se "Pungo" e, a bebe que veio a sobreviver foi mais tarde levada para casa da D. Chilala e integrada na família, que já era por si só numerosa.

D. Chilala já vez inúmeras tentativas de encontrar um parente da bebe mas as informações de que dispunha eram bastante escassas, como não bastasse veio a saber nestas incursões fracassadas que o pai da Pungo havia falecido pouco antes de terminarem os confrontos na cidade.

Onze anos depois D. Chilala decidiu contactar o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) que a registou com o nome da avó e tirou-lhe fotografias para sua fixação em locais públicos, uma metodologia usada pela instituição no país. As fotos foram publicadas na cidade do Kuito, sua terra natal e de Benguela, terra do pai.

Três anos passaram, entre apelos feitos por meio das emissoras provinciais da Rádio Nacional de Angola, publicação de listas e fotografias, contactos com líderes comunitários, um trabalho afincado em parceria com a Cruz Vermelha de Angola (CVA).

Eis que finalmente no primeiro trimestre de 2007 alguém apareceu nos escritórios da CVA no Kuito como sendo filho da pessoa cujo nome era dado a bebe que nesta altura contava com 14 anos de idade. Era o irmão mais novo do pai da Pungo que manifestou o desejo de levá-la consigo para a terra natal de seus progenitor, Benguela.

Este é mais um final feliz, dado o facto de outras histórias comoventes, que o CICV e a CVA têm testemunhado pelo país fora, e como se pode depreender se a guerra carrega com sigo muitas agruras cabe as mulheres o lado mais pesado, sendo em muitos casos elas a sacrificarem as próprias vidas para salvar a dos outros membros da família.

O CICV tem nos seus arquivos o registo de 23'800 pessoas desaparecidas em Angola durante o conflito, embora este não seja o número total dos desaparecidos no país. São mais de 1'471 crianças já devolvidas às suas famílias graças o esforço conjunto entre o CICV e a Cruz Vermelha de Angola desde 2002, neste programa.

Face a demanda, estes resultados parecem poucos, mas inimaginável no seu impacto psicológico que estes números carregam para aqueles que vivem na incerteza de voltar a ver seus entes queridos. No mesmo âmbito, desde 2002 inúmeras famílias restabeleceram contacto por meio de cerca de 417'185 mensagens Cruz Vermelha.


Outros documentos nesta secção
Em foco > As mulheres e a guerra 

Voltar ao princípio da página
Página inicial | Mapa do site | Pesquisa | Novidades | Contactos | Copyright
© 2008 Comité Internacional da Cruz Vermelha
3-03-2008