Irene Quaglia
Minha primeira tarefa na Agência de Buscas foi montar listas de pessoas desaparecidas entre 1977 e 1979. Depois de anotar todos os dados, elaborávamos as listas nas escrivaninhas e, quando não havia espaço, diretamente no chão. Nessa época não tínhamos computadores.
Recebíamos diariamente muitas denúncias de pessoas desaparecidas. Eu não tinha muita consciência do que representavam os nomes nas listas. Neste país, ninguém parecia estar sabendo o que estava acontecendo e as pessoas ainda festejavam o triunfo da Argentina na Copa do Mundo de Futebol, em 1978.
Poucos dias depois de começar meu trabalho, vi da janela do escritório um senhor de aspecto muito humilde, baixo, careca, segurando um boné de pano que balançava com as mãos. Acabava de ser atendido por uma de minhas colegas e cruzava a rua de um lado para outro, como se tivesse esquecido de perguntar alguma coisa e não se atrevesse a voltar. Tinha vindo buscar notícias de sua filha desaparecida. A imagem desse pai nunca vai sair da minha memória.
No Chile havia, naqueles anos, uma situação parecida a da Argentina. As pessoas que tinham permissão de sair do país chegavam em Buenos Aires para conseguir seu documento de viagem e poder prosseguir para um país de acolhida, geralmente o Canadá ou os países europeus, como Bélgica e França. Muitas vezes perdiam o contato com a família, pois não se arriscavam a dar notícias de seu paradeiro por medo e insegurança.
Não muito tempo depois, um conflito armado nos atingiu muito de perto: teve início a guerra de Falkland/Malvinas. O CICV esteve presente no terreno com seus delegados e delegados médicos. Eles entregavam barracas, bolsas de sangue e outros artigos de primeira necessidade, e naturalmente, elaboravam listas dos soldados que visitavam. Aqui em Buenos Aires, quase todo o pessoal local atendia aos familiares que diariamente se apresentavam para ter notícias dos soldados nas ilhas.
Geralmente, eram os pais que nos visitavam. Os filhos de muitos deles estavam vivos e em boa saúde. Posso assegurar que não existe no mundo um sorriso igual ao de um pai, quando lhe informam que seu filho está vivo. Em geral, inicialmente, nem sequer se lembram de perguntar se o filho está bem de saúde; só isso importa: tê-lo encontrado, tê-lo recuperado.
Mas nem sempre a notícia que tínhamos para dar era boa. Entre as pessoas que nesses momentos precisei atender estava um casal cujo filho estava a bordo do General Belgrano, um navio de guerra argentino que foi afundado pela Marinha britânica. Depois do afundamento, esta família começou a nos visitar para saber o que tinha acontecido com seu filho; em breve tivemos a lista dos poucos sobreviventes e o nome do rapaz não estava.
Através de sua delegação em Buenos Aires, o CICV provê atualmente documentos de viajem a pessoas provenientes de países em conflito que buscam refúgio na Argentina ou em terceiros países, e entrega certificados a veteranos da guerra das Falkland/Malvinas.
Ao mesmo tempo, corria o boato, que depois soubemos ser infundado, de que as tropas inglesas teriam recolhido vários sobreviventes. Esta incerteza de não saber onde estava seu filho foi o que atingiu ainda mais os pais. A mãe, uma mulher relativamente jovem, em apenas um mês começou a ter o aspecto de uma senhora idosa sem forças para lutar. Ela só se sentava à minha frente e chorava. Creio que o pior de tudo foi a busca sem resultados, o fato de não poder encontrar seu filho nem vivo nem morto.
Desconhecer o paradeiro de um ente querido é um dos maiores sofrimentos para uma pessoa, porque, embora seja triste e doloroso ter um pai, um filho ou um irmão presos, ou saber que estão mortos, é muito mais doloroso não saber o que aconteceu com eles. A incerteza e a dor são as mesmas, seja porque tenha se perdido o contato por causa da guerra, da violência ou da emigração.
Para quem precisa encontrar um parente ou um amigo, muitas vezes é difícil entender não ter conseguido atingir o objetivo. Assim, da mesma forma que recebi o reconhecimento e o agradecimento de muitos, às vezes também tive de receber críticas vindas de pessoas que eu não podia ajudar. Em compensação, não existe alegria maior que colaborar e ajudar aqueles que passam por essas situações e poder restabelecer o contato entre os familiares.