20-03-2008 Reportagem by Marion Harroff-Tavel A transição de uma situação de doença grave para crônica na medicina e no trabalho humanitário do CICV Como os funcionários humanitários em um país que está saindo de uma guerra, e os médicos que praticam medicina em Genebra, experimentam a transição de um problema grave para crônico – entre a missão de salvar vidas e a de apoiar pacientes que sofrem de doenças de longo prazo?
Este foi o tema debatido por médicos, pacientes e gestores do CICV em Zinal, Suíça, em março de 2008. A autora deste texto é consultora de políticas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, responsável pela análise de futuras tendências. O texto reflete apenas a opinião da autora e não corresponde necessariamente às opiniões do CICV.
Um vilarejo é atacado. A população foge através do que os autores do ataque consideram um corredor "humanitário", mas que, de fato, eles exploram para matar, ferir ou extorquir dinheiro de quem foge utilizando esta via. Os idosos – exaustos, assustados e congelados – viajam através de uma passagem na montanha, coberta de neve. O médico que os atende pratica a medicina de emergência e não tem tempo para considerar o estado emocional dos pacientes. Enquanto isso, o delegado do CICV está ocupado distribuindo comida e cobertores e dirigindo sua Land Cruiser sem parar, transportando as pessoas que estão para morrer. Um ano mais tarde, está em vigor um cessar-fogo. É o momento de começar a reconstrução. O mesmo médico não passa mais suas noites extraindo balas, amputando membros do corpo e ressuscitando as pessoas moribundas. A maior parte de seu tempo é dedicada a cuidar dos pacientes que sofrem de uma doença crônica, como a diabetes. O apoio ao paciente substitui a cirurgia de emergência. Quanto ao delegado do CICV, seu trabalho é agora oferecer apoio ao sistema de saúde ou aos consertos do sistema de abastecimento de água. A fase de distribuir água por meio de um caminhão pipa já passou.
©ICRC/T. Gassmann/sd-e-00215
Darfur. A equipe cirúrgica do CICV trabalha no hospital Zalingei.
Na condição de sobrevivente de um conflito armado, o paciente não se sentirá apto a confiar em uma pessoa que vê como abertamente preocupada com a qualidade técnica de seu trabalho. Se um médico se esconde por detrás de detalhes científicos e racionais impenetráveis ou se um delegado do CICV confere uma importância exagerada à implementação rigorosa do que parecem ser procedimentos burocráticos, perde toda o calor enquanto ser humano. Em outras palavras, deve estar pronto para ouvir as pessoas que querem falar sobre seu sofrimento e não ter medo de mostrar que é atingido por isto. Para qualquer pessoa que entra diariamente em contato com o sofrimento humano, manter a distância correta da outra pessoa e saber quando diminuir ou apagar esta distância é um desafio. Freqüentemente, a emoção se esconde ou é segurada sob rédeas, por medo de perder o controle, porque ela é contagiosa. A emoção pode nos lançar numa turbulência, mas também pode ser uma experiência positiva. Compartilhar a emoção nos permite sair de nossos papéis e de tudo o que se associa a eles. Naturalmente, o CICV deve se manter neutro e não pode emitir um julgamento sobre a razão do sofrimento. No entanto, estamos falando sobre experimentar um momento genuinamente íntimo no qual o que não pode ser transmitido em palavras pode ser expresso. Uma vez que a crise tenha terminado, o médico que trata de um paciente com uma doença crônica e o funcionário humanitário precisam saber como oferecer apoio, ou seja, como se retirar e passar para o segundo plano. Esta transição não é fácil, uma vez que envolve uma perda de controle. Não se trata mais de gerir o tratamento de um paciente ou fornecer ajuda humanitária rapidamente e de maneira independente, e de tomar decisões em benefício da outra pessoa, com base em uma avaliação ou diagnóstico. Não se trata mais simplesmente de informar à família. Trata-se de ajudar a pessoa a ter, mais uma vez, controle sobre seu futuro, retomar sua independência, e apesar das cicatrizes em sua vida, tomar suas próprias decisões. Ela precisa de apoio da família ou da comunidade, que também pode necessitar de ajuda. Isso pode levar tempo. Pode haver alguma perda de eficácia, tendo em vista a aflição vivida por alguém que precisa reconstruir sua vida e que não pôde prantear seus amigos e parentes e tudo o que perdeu. Não é fácil voltar a "funcionar" totalmente de imediato.
©ICRC/B. Heger/sd-e-00215
F
Campo de refugiados Farchana, leste do Chade. Uma delegada do CICV conversa com uma mãe cujo bebê sofre de um problema sério no olho. A criança será levada para uma clínica de terreno do CICV, onde receberá tratamento adequado.
O médico vai ensinar o paciente diabético a administrar sua dependência, vai lhe transmitir seu conhecimento e lhe oferecer apoio psicológico. O funcionário humanitário responderá às necessidades daqueles que sobreviveram à guerra, tal como eles a definirem. Ele vai formar a capacidade localmente, e, se houver necessidade, aumentar a capacidade da Cruz Vermelha Nacional ou da Sociedade do Crescente Vermelho. Estará aberto para aprender coisas novas e será enriquecido com isso. É a mesma história no CICV: as operações têm prestígio elevado. A organização sente orgulho de estar presente em uma zona de conflito dentro de quatro dias. Anuncia o número de feridos que receberam tratamento. No entanto, com que freqüência conversamos sobre o sucesso de um delegado que distribuiu sementes e instrumentos agrícolas e que mostrou a um agricultor como usar a vegetação local como fertilizante (desde que, é lógico, ele não conheça esta técnica desde tempos imemoriais)? Concluindo, há limites para comparações, mas a interdisciplinaridade é uma maneira de aprender. Um paciente diabético em um hospital em Genebra e alguém que ficou temporariamente vulnerável por causa de um conflito armado têm identidades e problemas diferentes. As analogias entre a medicina e a assistência durante conflitos armados (tanto na área alimentar como fora dela) não necessariamente dizem respeito a outras áreas de trabalho. Dito isto, o médico e o delegado do CICV (que também pode ser um médico) podem ajudar-se mutuamente se compartilharem seus pensamentos sobre a transformação que precisa ocorrer durante a transição de uma situação de crise para pós-crise. No que concerne o CICV, otimizar esta transição envolve ter consciência, o mais rápido possível, das exigências de desenvolvimento e reconstrução na crise. Em nível local, o trabalho humanitário da organização pode ajudar a reconstruir o tecido social que foi rompido. A qualidade humana dos homens e mulheres que emprega é a verdadeira riqueza da organização humanitária. A autora deste texto é consultora de políticas do CICV. O texto não necessariamente reflete as opiniões do CICV, mas sim aquelas da autora. |