Briga! Briga! Briga!
O que fez com que dezenas de crianças começassem a bater em uma menina não está claro. Mas em poucos segundos a notícia de que uma briga estava ocorrendo se espalhou. Hordas de crianças de tranças e roupas rotas correram para a o lugar, contentes de haver algo que acabasse com a monotonia de mais um dia sem ter o que fazer em Cité Soleil, a grande favela que se espalha na orla do mar na capital haitiana. Os pais cansados separam seus filhos, deixando a menina agredida escapar.
Este é um sinal distante dos dias em que as famílias corriam para se proteger dos tiroteios diários. Há alguns anos, Cité Soleil era um dos lugares mais perigosos e necessitados no planeta, marcado por uma guerra atroz entre quadrilhas pelo controle da área. Por comparação, o incidente de hoje poderia ter acontecido em um pátio de uma escola qualquer no mundo. Exceto que 90% das crianças de Cité Soleil são pobres demais para ir à escola.
As tropas da ONU estabilizaram a situação de segurança no Haiti, o país ocidental mais pobre do mundo, e muitos membros de quadrilhas estão mortos ou atrás das grades. No entanto, a violência continua rondando os 300 mil residentes de Cité Soleil, e tem como combustível a fome e a frustração de tentar sobreviver com menos de um dólar por dia.
O CICV está no Haiti desde 1994 e em Cité Soleil desde 2003. Rob Drouen, chefe da delegação do CICV, explica: “O Haiti é um Estado frágil, onde as quadrilhas armadas podem ser usadas para provocar problemas por razões políticas e pobreza servil é o combustível para o descontentamento”.
Uma avó sem sorte
Eu me esquivei das crianças alvoroçadas e entrei na casa de uma mulher que já sofreu mais do que se pode imaginar. Elevanise Tidor, de 83 anos, vive há tempos na favela de Cité Soleil. Em 2004, ficou encurralada em um tiroteio entre quadrilhas e recebeu tiros no tórax e no estômago. Enquanto desabotoa seu vestido desbotado para mostrar as cicatrizes de sua mastectomia, ela conta que depois foi atropelada por um carro e que agora mal pode andar.
Confinada em um barraco de telha corrugada com poucos móveis, ela se preocupa em como seus filhos e netos chegarão ao final do mês.
“Meu corpo levou os tiros, mas minha família é a mais atingida”, diz. “Não posso trabalhar nem fazer nada por eles. Meus netos com frequência vão para cama chorando de fome”.
Consertando os estragos
Que as vítimas podem sofrer anos depois do acontecido já se sabe. Mas em Cité Soleil o sofrimento pode durar toda uma vida.
Com a ajuda do CICV, um grupo de vítimas da violência ajuda outras pessoas sofredoras. Em 2007, Pierre Wilber fundou o REVICIS (Regroupement des victimes de Cité Soleil – Grupo de vítimas de Cite Soleil) depois que membros de uma quadrilha o agrediram por razões políticas. O REVICIS já identificou 300 vítimas e agora tenta arrecadar fundos para assistência social, psicológica e legal.
“Há tantos problemas sociais em Cité Soleil que todos aqui são vítimas”, diz. “Mas damos prioridade às pessoas visivelmente marcadas pela violência, porque sofrem em dobro”.
Brice Osmer é uma das pouquíssimas vítimas que ainda pode trabalhar. Em abril de 2005, ele ficou encurralado em uma troca de tiros entre tropas da ONU e membros de uma quadrilha. Ele foi atingido três vezes e perdeu um braço. Desde então, caminha pelas ruas vendendo telefones celulares e bolsas de água.
“Em um bom dia posso ganhar um dólar, mas graças a minha esposa, que vende comida desde o dia amanhecer até anoitecer, é que meus filhos não morrem de fome”.
Outras vítimas não tem tal apoio. Em 2006, Roudeline Lamy (23) deixou seu bebê de três meses cair quando foi baleada no estômago. Ela ainda sofre de dores no estômago, mas o impacto da queda deixou sua filha paralítica da cintura para baixo. O marido de Roudeline foi morto pelas quadrilhas e ela dorme em um chão de cimento de um barraco que enche cada vez que chove, contando com a caridade de amigos e confiante que Deus não vai abandoná-la.
Com poucos serviços públicos, aos pobres resta acreditar em Deus. Duas escolas e um hospital públicos atendem à população cada vez maior, enquanto agências de socorro e grupos religiosos tentam preencher esta lacuna.
A resposta da Cruz Vermelha
O CICV atua em toda Cité Soleil, ajudando aos mais pobres. Não existem ambulâncias públicas, portanto os voluntários da Cruz Vermelha têm prestado primeiros socorros e evacuado os doentes e feridos desde 2003. Em 2004, no auge da guerra entre quadrilhas, a Cruz Vermelha assegurou que as pessoas tivessem acesso à água. Antes, elas precisam arriscar suas vidas atravessando as linhas de frente para encher seus baldes.
Hoje, o CICV trabalha com a junta para questões de água, mantendo e administrando 53 pontos de água comunitários em toda Cité Soleil, ligando-os por algumas horas, vinte dias ao mês.
Prospere Borgelin trabalha com o CICV no projeto hídrico. Ele também trabalha com outras organizações internacionais para melhorar as condições de vida em Ti-Haiti, onde ele vive (Ti-Haiti significa "Petit Haiti" – Pequeno Haiti – em francês crioulo).
Como outros líderes de comunidade, ele viu os benefícios de trabalhar junto com as agências humanitárias e com as tropas brasileiras da missão de estabilização da ONU, responsável pela segurança em Cité Soleil.
“As tropas nos trouxeram segurança. As comunidades estão começando a se organizar. Vemos os resultados nas estradas que estão sendo construídas, no lixo recolhido e no esgoto removido”, diz.
Correndo um considerável risco de vida, Borgelin ajudou as tropas da ONU e a polícia haitiana a prender membros e quadrilhas em seu bairro e continua vigilante.
Como muitas pessoas em Cité Soleil, ele teme que a ONU se retire antes que a polícia haitiana esteja preparada para assumir e que se voltem a escutar nas ruas os ecos dos tiros.
“A miséria”, diz, “alimenta a violência. E ainda há muita miséria em Cité Soleil”. |
©ICRC/VII/Ron Haviv/v-p-ht-e-00399
Porto Príncipe. Secam bolos de lama ao sol nas escadas. Cité Soleil pode ser um pouco menos violenta hoje, mas continua tão pobre como antes. A maioria das pessoas luta para pagar pela comida e pela água e muitas delas são obrigadas a comer bolos de lama misturados com manteiga e sal para aplacar a fome.
©ICRC/VII/Ron Haviv/v-p-ht-e-00296
Porto Príncipe. Elevanise Tidor, de 83 anos, vive há tempos na favela de Cité Soleil. Em 2004, ficou encurralada em um tiroteio entre quadrilhas e recebeu tiros no tórax e no estômago.
©ICRC/VII/Ron Haviv/v-p-ht-e-00341
Porto Príncipe. Cité Soleil. Brice Osmer, que perdeu um braço em um fogo cruzado em 2005, sai da igreja e volta pra casa.
©ICRC/VII/Ron Haviv/v-p-ht-e-00402
Porto Príncipe. Noventa por cento das crianças de Cité Soleil são pobres demais para ir à escola. O tédio leva a brigas entre crianças de rua e muitas delas vão para a cama com fome todas as noites porque as famílias não podem comprar comida.
©ICRC/VII/Ron Haviv/v-p-ht-e-00410
Porto Principe. Roudeline e sua filha de três meses, ambas vítimas da violência, dormem em lajes de cimento em Cité Soleil.
|
|