26-05-2009 Entrevista Experiência do CICV em cirurgia de guerra O cirurgião-de-guerra do CICV, Chris Giannou, explica a extensão e os objetivos da nova publicação Cirurgia de guerra: trabalhando com recursos limitados em conflitos armados e outras situações de violência. Como coautor, Giannou conta um pouco sobre a política de cirurgias de guerra do CICV e as práticas gerais, assim como o novo conteúdo do livro.
Chris Giannou, cirurgião de guerra do CICV.
Cirurgia de guerra: trabalhando com recursos limitados em conflitos armados e outras situações de violência.
Esta nova publicação reúne a experiência derivada desses três tipos de programa para definir os procedimentos e protocolos clínicos do CICV. Grande parte está baseada nas discussões e troca de experiências entre os cirurgiões do CICV e os colegas que participaram de mais de 120 seminários sobre cirurgia de guerra organizados em mais de 30 países afetados por conflitos. O que há de novo neste livro? Para enfrentar o desafio confrontado pelos cirurgiões que lidam com pacientes feridos de guerra pela primeira vez nessas condições extremas, nosso antecessores no departamento cirúrgico da Divisão Médica do CICV editaram um manual básico de referência: Cirurgia para vítimas de guerra. As três primeiras edições foram amplamente distribuídas e aclamadas no mundo todo. Originalmente, haveria uma quarta edição deste trabalho clássico, mas os progressos na prática cirúrgica do CICV, as perguntas e os pedidos durante os seminários de cirurgia de guerra logo mostraram que seria necessário fazer um livro totalmente novo, a ser publicado em dois volumes. Uma quantidade importante de material novo foi acrescida a este Volume , sobretudo nos capítulos não relacionados com a cirurgia que abordam tópicos mais genéricos como a coordenação, a logística e os princípios subjacentes à abordagem do CICV. Dentre eles: ©ICRC / B. Heger / sd-e-02138
Região de Djebel Mara, Sudão. Um grupo de médico baseados em Nyala realiza uma operação de emergência em uma clínica no terreno.
Os últimos progressos no campo de cirurgias do trauma (reanimação na sala de emergências, cirurgia para controle de danos, uma combinação fatal de hipotermia, acidose e coagulopatia) também foram incluídos e os capítulos relacionados com a cirurgia foram totalmente reescritos. Quais são algumas das lições que o CICV aprendeu nesses muitos anos de programas de cirurgia de guerra? A filosofia por trás da abordagem do CICV está baseada no conceito de adequação; o que é adequado em um contexto não é necessariamente aplicável a outro e a chave para o sucesso operacional é definir a resposta correta – adequada – para uma dada situação. Portanto, podemos descrever um escopo de "cirurgias" para feridos de guerra dependendo dos recursos humanos e tecnologia disponíveis. Existem quatro níveis de organização e sofisticação para cuidados cirúrgicos disponíveis para pacientes feridos de guerra:
A patologia é semelhante em todos esses casos; no entanto, o diagnóstico e os meios terapêuticos disponíveis diferem muito. Às vezes, a tecnologia é relativamente sofisticada e há muita gente treinada. Na maioria dos contextos nos quais o CICV está envolvido (níveis três e quatro), em geral, o que é adequado é uma questão de fazer o melhor com recursos limitados. A experiência do CICV mostra que se pode fazer muita coisa na cirurgia de guerra usando meios muito simples, mas cientificamente adequados e apropriados. Esta abordagem provou ser muito eficaz em termos de custo, sobretudo em um país com recursos financeiros limitados, onde cada centavo gasto em cuidado curativo é à custa de medidas preventivas. ©ICRC / V. Louis / so-e-00302
Um doutor no Hospital Keysaney, em Mogadíscio, administrado pelo Crescente Vermelho somali e apoiado pelo CICV, opera um paciente ferido por estilhaços.
Quem se beneficiará com esta publicação? A prática do CICV na maioria dos casos não difere muito da de um hospital público em uma área rural de um país de baixa renda que enfrenta um fardo extra na saúde, que é cuidar desses feridos de guerra. As explicações das técnicas estão ajustadas ao nível de conhecimento e prática de cirurgiões-gerais em um hospital rural. Esses cirurgiões são em geral os primeiros a verem os pacientes feridos em um conflito e sabem que, nessas circunstâncias, encaminhá-los para um centro de saúde mais sofisticado – distante e em uma capital inacessível – é pouco prático e possível. Este livro tenta dar conselhos básicos sobre o tratamento de várias feridas de armas, descrever aos cirurgiões – civis ou militares - os tipos de operações que se mostraram bem-sucedidas em práticas do CICV ou em outras do mesmo nível em um país afetado pelo conflito, que não têm treinamento especializado. Depois, os cirurgiões das Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho ou de organizações não-governamentais, que estão em missões humanitárias pela primeira vez e enfrentam os desafios de uma patologia totalmente nova em condições extremas e circunstâncias precárias se beneficiarão com a leitura deste livro antes de seu posicionamento. |