O que significa não ter mais acesso à água limpa durante um conflito armado?
Primeiro e mais importante, significa que a vida como tal está em risco. Seres humanos não sobrevivem mais de três dias sem água. Segundo, todo mundo precisa de água para lavar, cozinhar, lavar roupas e outros objetos. A falta de água leva a um declínio nos padrões de higiene e à deterioração imediata do ambiente, como as acomodações e os utensílios de cozinha, o que pode levar muito rapidamente à disseminação de epidemias.
Além disso, as pessoas podem ter que enfrentar riscos para conseguir acesso a água. Procurar por ela numa cidade sob cerco pode colocar a sua vida em risco por apenas alguns litros de uma substância tão comum! Em algumas regiões semi-áridas, como o chifre da África, as variações climáticas de um ano para o outro e a falta de segurança generalizada forçam as populações nômades e sedentárias a entrarem em conflito por acesso a água, um recurso vital tanto para as pessoas quanto para os rebanhos. Quando o gado está morrendo de sede, as pessoas não podem mais garantir sua subsistência. Os nômades são, então, forçados a emigrar em busca de novas áreas para pastagem, além de suas áreas tradicionais e, aí, podem entrar em conflito com outras populações.
A falta de água muitas vezes incita o antagonismo entre comunidades. Qual a abordagem do CICV nestas circunstâncias?
Numa situação de crise onde o CICV intervém, é normalmente difícil identificar com clareza as causas das tensões entre as comunidades. Os problemas existentes são geralmente exacerbados pela crescente falta de água, ou, em casos extremos, a luta por água pode ser, mesmo, o principal motivo de confrontação. Em qualquer circunstância, os engenheiros de campo do CICV são responsáveis por encontrar soluções que ajudem a diminuir as tensões entre as comunidades. A melhora no acesso a água é conseguida através da restauração de estações de bombeamento, perfuração de poços e, algumas vezes, distribuição de água em situações emergenciais.
Nossos engenheiros também precisam estar cientes das circunstâncias sócio-econômicas para encontrar a melhor solução e assegurar que um projeto hídrico específico não vá aumentar ainda mais as tensões. Por isso é que nós envolvemos os próprios beneficiários de nosso trabalho e as autoridades locais.
Nós também incentivamos o diálogo, que é o que nos permite negociar a realização das atividades de maneira efetiva, de forma que os benefícios atinjam a todos, sem discriminar a que lado as pessoas ajudadas pertencem. Nós temos sempre conseguido chegar a acordos com as autoridades locais sobre a distribuição justa desta ajuda. Um CICV imparcial e neutro é o que fundamenta nossa convicção e, no trabalho com água, isso não é uma exceção.
Uma de nossas preocupações constantes é com a proteção de todo o pessoal que tem que levar água até suas casas sejam essas pessoas mulheres, crianças ou homens. Para aumentar essa proteção, nós procuramos sempre construir os pontos de fornecimento de água perto de onde as pessoas vivem, para evitar o risco de ataques contra a população que procura por água. O CICV também tem um papel importante como facilitador, em inúmeros contextos onde equipes técnicas e autoridades locais sentem que não existem mais condições de segurança para que eles desempenhem suas tarefas. Ao acompanhar as equipes locais de engenheiros até o seu trabalho, o CICV oferece a essas pessoas a proteção que o emblema da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho garantem. Em outras palavras, provemos condições de segurança aceitáveis. Estes têm sido os casos, por exemplo, do Iraque, do Haiti e do Líbano.
Cada vez mais, os conflitos afetam zonas densamente urbanizadas, como aconteceu no final de 2006, no Líbano. Como o CICV responde a este desafio?
O CICV desenvolveu conhecimento importante sobre seu trabalho em ambientes urbanos ao longo dos últimos 20 anos, especialmente nos casos de emergências complexas, onde a densidade populacional é alta, os sistemas de suprimento de água são relativamente sofisticados e as autoridades locais estão fragmentadas. Primeiro, o risco de epidemias deve ser prevenido, mas isso não pode ser alcançado sem o conhecimento técnico dos sistemas existentes no local. A permanência de longo prazo do CICV em diversos países nos deu esse conhecimento, não só no que se refere aos sistemas locais de fornecimento de água, mas também no que diz respeito ao trabalho realizado pelos homens e mulheres envolvidos. Por exemplo, no Bálcãs, no Iraque e no Afeganistão, os engenheiros do CICV e as autoridades locais conseguiram verdadeiros milagres num curto espaço de tempo.
Uma vez que o acesso à água limpa é assegurado, nós passamos a tratar das tubulações e infra-estruturas de distribuição que, em muitos casos, estão destruídas ou já não dão conta da demanda, devido ao aumento populacional e à falta de investimentos em manutenção e restauração. Em todos estes casos, estas operações fazem parte de uma estrutura de resposta de longo prazo, que colabora com a função das autoridades locais de levar água à população. Nós não fazemos curativos nestes sistemas, nós atuamos de forma profunda, com soluções duradouras.
É importante ressaltar que nosso interesse não é puramente de engenharia. A saúde pública é nossa principal preocupação. O acesso à água não é o bastante. É preciso assegurar uma produção suficiente e de qualidade. É por isso que deve haver um dia dedicado à água e ao saneamento porque estes dois aspectos não podem estar dissociados.
Os engenheiros do CICV também atuam em locais de detenção. Qual a abordagem nestes casos?
Nós trabalhamos com as autoridades de detenção de forma apoiadora. Tentamos evitar a substituição ao menos que a vida dos detidos esteja imediatamente em risco. Esse tipo de trabalho preventivo é realizado por muito tempo, já que doenças como tifo e cólera são epidemias difíceis de serem erradicadas em ambientes prisionais.
Os engenheiros do CICV têm que equilibrar inúmeras preocupações para evitar ou conter a disseminação de epidemias em espaços de grande confinamento. Diferentemente do que acontece em ambientes rurais, a mesma quantidade de água por pessoa em locais fechados não é suficiente para assegurar um nível de sanidade aceitável. Nós temos que ser muito profissionais em nossa abordagem.
Nosso trabalho de assistência em locais de detenção é muito complementar às atividades de proteção do CICV. Nossos engenheiros de campo estão muito concentrados nas condições dos detidos e na melhora das condições materiais de detenção. Por condições materiais, nos referimos ao acesso à água, seja ela potável ou para lavar, além da segurança alimentar, fazendo com que as cozinhas sejam limpas como devem ser. O trabalho destes engenheiros também cobre condições gerais de vida e o espaço destinado a cada detido. Com isso, nos referimos à ventilação, iluminação e acesso a ambientes exteriores.
Por último, nós levamos em conta a situação das áreas que estão ao redor dos locais de detenção e que, como um todo, devem ser tratadas de maneira justa. Em muitos casos, nós desenvolvemos projetos nas áreas vizinhas, impedindo que a população que vive ao redor se sinta marginalizada. A mesma lógica deve ser aplicada aos campos de deslocados, onde a população originalmente residente deve beneficiar-se das mesmas condições que os deslocados recém-chegados, no que diz respeito ao acesso a água e ao sistema de saúde.